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10/04/14

ERA UMA VEZ UMA PORTA







Era uma vez uma porta
que, em Moçambique, abria para Moçambique.

 Junto da porta havia um porteiro. Chegou um indiano moçambicano e pediu para passar. 
O porteiro escutou vozes dizendo:

- Não abras! Essa gente tem mania que passa à frente!

E a porta não foi aberta. Chegou um mulato moçambicano, querendo entrar. De novo, se escutaram protestos:

- Não deixa entrar, esses não são a maioria.

Apareceu um moçambicano branco e o porteiro foi assaltado por protestos:

-Não abre! Esses não são originais!

E a porta não se abriu. Apareceu um negro moçambicano solicitando passagem. E logo surgiram protestos:

- Esse aí é do Sul! Estamos cansados dessas preferências…

E o porteiro negou passagem. Apareceu outro moçambicano de raça negra, reclamando passagem:

- Se você deixar passar esse aí, nós vamos-te acusar de tribalismo!

O porteiro voltou a guardar a chave, negando aceder o pedido.

Foi então que surgiu um estrangeiro, mandando em inglês, com a carteira cheia de dinheiro. Comprou a porta, comprou o porteiro e meteu a chave no bolso.

Depois, nunca mais nenhum moçambicano passou por aquela porta que, em tempos, se abria de Moçambique para Moçambique.


Mia Couto

Nota da autora do post:Uma vez mais trago-vos Mia Couto com este texto tão expressivo que decerto vos deixará a pensar.
M.A.

10/01/13

FALANDO DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN




Existindo apetência pela leitura, em especial por poesia, facilmente se identificará  quem  hoje serve de título ao nosso post mas, no caso de  alguém ter  dúvidas, por favor clique  aqui para saber algo mais sobre esta grande senhora, um dos  nomes cimeiros da nossa literatura contemporânea.
No entanto, do que eu hoje  venho  falar é, particularmente, de um texto escrito por  seu filho, o jornalista Miguel de Sousa Tavares,  publicado no jornal “O Público”, em 12 de Junho de 1999.
 Muito embora a figura central deste texto seja  a sua mãe, ele   fala também   da casa onde moravam, da importância que a poesia ali ocupava, daqueles com quem conviviam, mas…tudo descrito  ao jeito, ainda, dos olhos  da criança que ele foi.
 Que bem escolhidas foram as palavras neste   desfiar de recordações, entretecidas de muita ternura mas, onde também não se esquece um ou outro  “embaraço” que aquela mãe causava sendo, de certa forma diferente,  da maioria das outras mães.
Um retrato tão pormenorizado quanto expressivo dos valores que ela lhe transmitiu. A forma como o ensinava a olhar para as pessoas e as coisas, o  levá-lo a aperceber-se da diferença que   a magia da poesia dita e escutada, pode ter, comparada com a  poesia apenas lida e, em suma,  o ensinar a  olhar o mundo em seu redor com «verdadeiros olhos de ver» como, geralmente,  só os poetas conseguem fazer. 
Um conjunto de ensinamentos que como este filho afirmou terá sido  a moral que perpassou pela sua obra toda. 
 Hoje,  mesmo passados estes anos, este  texto não perdeu  actualidade porque do que nele se fala são  temas afinal, eternos!
Terminamos  com o poema de Sophia em que o  filho se inspirou e, ao qual ele foi buscar  o título:

E Ela Dança

Às vezes, quando a casa estava adormecida à noite, ela dançava pela sala fora, tal qual como escreveu ("bailarina fui mas nunca bailei"). Às vezes, convencia-se que havia ladrões em casa e acordava-me do sono para espreitar debaixo da minha cama, e às vezes havia ladrões a sério, com cara de assassinos e crachá da PIDE, que chegavam pela alvorada do dia, mas verdadeiramente ela não tinha medo dos ladrões nem dos esbirros do "velho abutre": só tinha medo de fantasmas.
Naquela casa, aprendemos cedo duas coisas sobre a poesia. A primeira, era que os poetas eram todos uns personagens extraordinários, que apareciam a horas imprevistas e diziam coisas surpreendentes. De todos, o mais fantástico era o Ruy Cinatti, que nos convenceu que era o nosso irmão mais velho, regressado de outra vida em Timor e que esteve à beira de conseguir transformar-nos em guerrilheiros contra a precária disciplina familiar. Vinham e iam constantemente poetas tristes ou alegres, cerimoniosos ou tumultuosos e até um, o Ruy Belo, que me levava à Luz ver o Benfica e jogava futebol comigo no jardim.
A segunda coisa sobre poesia que aprendemos é que a poesia é para ser dita e para ser escutada: é oral, não cabe nos livros. Eu não sabia nada de aritmética, nem de botânica ou mineralogia mas, aos dez anos, já tinha aprendido, de ouvido, a recitar sonetos de Shakespeare em inglês do século XVI, ou o "Erl König", do Goethe, em alemão. E quando ela trouxe para casa um disco com poemas do Lorca recitados em espanhol pela Germaine Montero, ouvi-o tantas, tantas vezes, que fiquei a saber de cor o imenso "Llanto por Ignácio Sanchez Mejia". À mesa, entre a sopa e o prato principal, dentro de um automóvel a caminho do sul ou na missa das sete da tarde na Igreja da Graça, de repente ela começava a recitar poesia com a mesma naturalidade com que os outros falavam de coisas triviais ou respondiam em latim ao "orate, frates!" do padre. Às vezes, naquele terror que as crianças têm que os pais pareçam estranhos em público, apetecia enfiarmo-nos pelo chão abaixo quando, à mesa de um café no Chiado, ou numa loja, em plenas compras de Natal, ou caminhando connosco pela rua de mãos dadas (por vezes, distraída, perdia-nos), ela começava a recitar poesia em voz alta, como se o mundo inteiro à sua volta lhe fosse de repente absolutamente alheio. Um dia, no eléctrico a caminho de casa, ela fixou-se num letreiro, por cima de uma janela, que rezava assim: "se alguma janela o incomoda, peça ao condutor que a feche." E então, no meio daquele silêncio envergonhado dos passageiros, que fingem não ver e não se ouvir uns aos outros, ecoou a voz dela, clara e silabada, recitando um poema: "se alguma janela o incomoda, peça ao condutor que a feche e que nunca mais a abra."
A mim, todavia, ensinou-me o mais importante de tudo: ensinou-me a olhar. Ensinou-me a olhar para as coisas e para as pessoas, ensinou-me a olhar para o tempo, para a noite, para as manhãs. Ensinou-me a abrir os olhos no mar, debaixo de água, para perceber a consistência das rochas, das algas, da areia, de cada gota de água. Ensinou-me a olhar longamente, eternamente, cada pedra da Piazza Navone, em Roma, sentados num café, escutando o silêncio da passagem do tempo. Fez-me mergulhador e viajante, ensinou-me que só o olhar não mente e que todo o real é verdadeiro. Quem ler com atenção, verá que esta é a moral que atravessa toda a sua escrita.
A outra lição decisiva foi a da liberdade. Não só a liberdade física, não só a liberdade na luta pela justiça, "num sítio tão imperfeito como o mundo", mas ainda a liberdade na busca de um caminho próprio onde as coisas tenham uma ética e façam sentido e, acima de tudo, a liberdade da nossa própria solidão. Prémios, condecorações, homenagens, são-lhe de tal forma alheios que ninguém mais o entende. Dêem-lhe, sim, silêncio e tempo, manhãs como a "manhã da praça de Lagos" e noites com "jardins invadidos de luar". E ela dançará. Ao longo das sílabas dos poemas, como dançava na minha infância.

Por delicadeza

Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado

Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse:
Também eu direi:

“Juventude ociosa
por tudo iludida
por delicadeza
perdi minha vida”

Quem sabe se, com este nosso modesto apontamento, conseguimos despertar em algum dos leitores o desejo de partir à descoberta da maravilhosa obra literária de Sophia de Mello Breyner Andersen.
M.A.

25/06/12

MEDINDO AS RIQUEZAS DO SER HUMANO




«Tenho a intenção de processar a revista "Fortune", porque fui vítima de uma
 omissão inexplicável. Ela publicou uma lista dos homens mais ricos do mundo,
 e nesta lista eu não apareço. Aparecem: o sultão de Brunei, os herdeiros de
 Sam Walton e Mori Takichiro. Incluem personalidades como a rainha Elizabeth
 da Inglaterra, Niarkos Stavros, e os mexicanos Carlos Slim e Emilio
 Azcarraga.
 Mas eu não sou mencionado na revista.
 E eu sou um homem rico, imensamente rico. Como não? Vou mostrar a vocês:
 Eu tenho vida, que eu recebi não sei porquê, e saúde, que conservo não sei
 como.
 Eu tenho uma família, esposa adorável, que ao me entregar sua vida me deu o
 melhor para a minha; filhos maravilhosos, dos quais só recebi felicidades; e
 netos com os quais pratico uma nova e boa paternidade.
 Eu tenho irmãos que são como meus amigos, e amigos que são como meus irmãos.
 Tenho pessoas que sinceramente me amam, apesar dos meus defeitos, e a quem
 amo apesar dos meus defeitos.
 Tenho quatro leitores a cada dia para agradecer-lhes porque eles lêem o que
 eu mal escrevo.
 Eu tenho uma casa, e nela muitos livros (minha esposa iria dizer que tenho
 muitos livros e entre eles uma casa).
 Eu tenho um pouco do mundo na forma de um jardim, que todo ano me dá maçãs e
 que iria reduzir ainda mais a presença de Adão e Eva no Paraíso.
 Eu tenho um cachorro que não vai dormir até que eu chegue, e que me recebe
 como se eu fosse o dono dos céus e da terra.
 Eu tenho olhos que vêem e ouvidos para ouvir, pés para andar e mãos que
 acariciam; cérebro que pensa coisas que já ocorreram a outros, mas que para
 mim não haviam ocorrido nunca.
 Eu sou a herança comum dos homens: alegrias para apreciá-las e compaixão
- para irmanar-me aos irmãos que estão sofrendo.> E eu tenho fé em Deus que vale para mim amor infinito.
 Pode haver riquezas maiores do que a minha?

 Porquê, então, a revista "Fortune" não me colocou na lista dos homens mais
 ricos do planeta? "
 E você, como se considera? Rico ou pobre?
 Há pessoas pobres, mas tão pobres, que a única coisa que possuem é …
 dinheiro!»
Armando Fuentes  Aguirre (Catón)

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 O que vos trouxe hoje foi um fabuloso texto do escritor mexicano Armando Fuentes Aguirre (Catón) que achei interessante partilhar com os nossos leitores. Para quem não conheça ou não se lembre de quem estamos a falar, convido a que cliquem aqui para obterem a respectiva informação.
Espero ter ido ao encontro do vosso gosto.
M.A.

23/04/12

FRASES DE MILLÔR FERNANDES



Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.

O cara é só sinceramente ateu quando está muito bem de saúde.

De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência

Com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado.

Metade da vida é estragada pelos pais. A outra metade, pelos filhos.

Se todos os homens recebessem exactamente o que merecem iria sobrar muito dinheiro no mundo.

Um homem começa a ficar velho quando já prefere andar só do que mal acompanhado.

Erudito, é um sujeito que tem mais cultura do que cabe nele.

O homem é o macaco que não deu certo.

Todo o homem nasce original e morre plágio.

A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar, ao amigo, de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades.

Como são admiráveis todas as pessoas que nós não conhecemos bem.

As pessoas que falam muito mentem sempre, porque acabam esgotando o seu estoque de verdades.

Viver é desenhar sem borracha.

Esnobar, é exigir café fervendo e deixá-lo esfriar.

Não devemos resistir às tentações porque elas podem não voltar.

Chato: Indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele.

Esta é a verdade, a vida começa quando a gente compreende que ela não dura muito.

O dinheiro não dá felicidade. Mas paga tudo o que ela gasta.

Jornalismo é oposição. O resto á armazém de secos e molhados.

Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor.

[ POEMEU EFEMÉRICO]
Viva o Brasil
Onde o ano inteiro
É primeiro de Abril

Nota da autora do post- Millôr Fernandes faleceu muito recentemente, no dia 27 de Março último. Para os leitores que queiram saber os seus dados biográficos queiram clicar aqui.
M.A.
Sociedade de Instrução Musical e Escolar Cruz Quebradense

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