Como tudo começou

23/05/09

A MARIA E O JUSTINO


Como já vos referi antes, os meus avós maternos viviam numa pequena aldeia onde possuíam uma casa de lavoura.
Entre o pessoal havia, como criada do campo, uma moçoila, de nome Maria, alegre, desempoeirada e, ao que diziam, sempre de resposta na ponta da língua.
Um dia, o destino trouxe até àquela porta um pobre diabo que pedia esmola e, além dela, veio a encontrar ainda uma mudança de vida. O meu avô terá simpatizado com aquele homem e, após uma breve conversa pela qual se apercebeu da triste vida que tinha na sua frente, decidiu contratá-lo para tratar do gado…

O meu avô chegou a exercer vários anos o cargo de regedor. Era uma pessoa muito respeitada lá na terra, mas igualmente tida como bastante severa, de “mau feitio” e pouco dada a brincadeiras. Porém, sempre pronto a ajudar quem precisasse, como parece ter sido o caso.
O Justino, era este o nome do homem, passou desde então a fazer parte da casa e creio que nunca o meu avô terá tido motivo para se arrepender da decisão que tomou. Era eficiente, dedicado mas extremamente introvertido e conservando sempre um semblante tristonho. Reflexos, possivelmente, de um passado nunca desvendado!...


Ora, um bela manhã, quando o bom do Justino trazia numa mão o canado do leite que mungira à “Boneca”, o meu avô notou que ele tinha a cara toda escalabrada, a roupa rasgada e suja de sangue e caminhava com dificuldade, apertando os joelhos com a outra mão. Enquanto o interrogava foram medindo o leite e, dos habituais 20 litros diários, deram conta que só ali estavam 8. Todas as perguntas iam ficando sem resposta! O Justino continuava, mudo e quedo, como é costume dizer-se e, apenas encolhia os ombros num jeito envergonhado …
Foi então que entrou em cena a Maria. Ela avançou para o Justino, deu-lhe um safanão e berrou-lhe ao ouvido:
_Ó “estapor d’ home”, diz lá ao patrão que a vaca hoje só te deixou tirar 8 litros de leite porque te deu um par de coices entre as pernas que até te fez ver as estrelas!
O meu avô interveio com o seu ar sério:
_Mas que conversa é essa? Afinal o que é que se passa?
_Atão o patrão não está a ver?! Mas não tenha pena dele. Mesmo que a vaca lhe tivesse feito ir pelos ares tudo aquilo, nada se perdia!
_Mas você está doida ou quê?!
_Não estou doida, não patrão. Não se perdia nada porque ele até já nem lhe dava uso!
E virando-se para o Justino invectivou:
_Ó ”estapor” fala e diz a verdade ao patrão! Tu já não davas uso a isso pois não?

E dando uma sonora gargalhada, partiu quintal abaixo, com a enxada ao ombro a cantar uma moda em voga…

P.S.-Estes dados, em especial a parte do diálogo, retirei-os de uma das várias histórias reunidas no livro “Porta sem Trinco”. O seu autor, um tio meu, Rafael Godinho, era, ao tempo, um jovem estudante. Talvez tenha mesmo testemunhado este episódio. Provavelmente, trarei ao blog mais uma ou outra história dessa mesma obra.

M.A.

2 comentários:

Quica disse...

Gostei, como sempre a Amélia tem uma forma de nos encantar com a sua arte de contadora de histórias.
Aguardo a próxima.

Laura disse...

Ahhh, os meus avós também tinham vacas, e eu aprendi a mungi-las, mas, episódios desses, nunca, ams nunca assisti, belissimo o conto verdadeiro, belissimo..ahhh houvesse mais vacas com tal coice que há muitos que os mercem, ehhhhhh. beijinhos.

Sociedade de Instrução Musical e Escolar Cruz Quebradense

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