Como tudo começou

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16/06/10

CAMINHO DE FERRO DO DOURO


De vez em quando, a sorte bafeja-nos, caem-nos em mãos verdadeiras preciosidades e, logo desperta a vontade de as partilhar com os nossos leitores.
Desta vez foi um conjunto de antigas fotografias feitas ao longo do percurso que o comboio fazia, nesta zona duriense, onde visualizamos pontes, viadutos, estações, apeadeiros, túneis, etc. tudo isto naquela patine sépia, de outros tempos.



O comboio foi, durante muito tempo, o meio de transporte mais utilizado por quem para ali pretendia deslocar-se. As viagens eram um acontecimento importante e, porque ainda ninguém sonhava com TGVs, elas demoravam tantas e tantas horas que, o cesto com um bom farnel era também algo que convinha nunca esquecer.

As locomotivas, movidas a vapor, eram conduzidas pelo chamado maquinista e, com este, seguia também o fogueiro, cuja função era encher, constantemente, a fornalha de carvão. Estes dois homens vestiam, geralmente, fatos-macaco e bonés de ganga azul e, os seus rostos e mãos mostravam-se mascarrados pela fuligem. Também, de vez em quando, os passageiros apanhavam com uma chuva de faulhas que, sopradas pelo vento entravam pelas janelas. Rostos e fatos ficavam pintalgados de carvão e, por isso, havia mesmo quem levasse uma muda de roupa, para usar ao chegar ao destino.

Mas, em contrapartida, eram igualmente, tempos de pausa, ao jeito de se poderem desfrutar paisagens de sonho, de se trocarem longas conversas entre companheiros de viagem e, até, como aconteceu com alguém que eu conheci, de encontrar o amor da sua vida…Com muita graça, recordava este amigo que, sendo na altura alferes, em viagem para a Régua, chamou-lhe a atenção uma peninha que aparecia num chapéu feminino, por cima das costas de um dos assentos do comboio. Teve curiosidade de ir ver quem usava o dito chapéu e… o Cupido andava ali por perto!
Conheci este casal já com cabelos brancos, pais de duas filhas e com netos nascidos. E tudo tinha começado, um dia, no comboio para o Douro, com o aparecimento da tal peninha num chapéu!…

(Formatação em vídeo de Fernando)
M.A.

02/06/10

ARTE XÁVEGA

(clique para ampliar)

Raul Brandão escreveu um dia: _«Que belo e estranho pais é este onde os bois lavram o mar!”
Creio que esta frase foi inspirada no facto de, em certas zonas do nosso país, os bois, para além das tarefas ligadas às culturas agrícolas e vida rural, ajudarem também os pescadores na faina marítima. Eles puxavam os barcos, sobre troncos, para os colocarem no mar e depois, com a rede já cheia de peixe eram de novo as juntas de bois e também os braços dos homens e mulheres que faziam o seu arrasto para terra.
Este antigo género de pesca é chamado “Arte xávega”. Vão ter oportunidade de o ver neste vídeo:




Numa explicação muito resumida, os barcos saiam para o mar, deixando um cabo preso em terra. Depois, já ao largo, lançada a rede em semi-círculo, dava-se tempo para que o peixe entrasse nela. Chegada a hora da recolha, regressado o barco, o cabo que apertava o “saco” (nome dado a esta rede), juntava-se com o outro que ficara em terra e, ambos, com a força dos bois e da gente presente iriam arrastar o produto da pesca conseguida.

Eu tive a felicidade de na minha infância poder assistir a este bonito espectáculo na praia do Furadouro. Nos meses de verão, aos vareiros juntavam-se também os banhistas presentes ajudando neste puxar das redes. E que momento de emoção era o avistamento do “pipo”?!... Este, era o nome dado à bóia presa junto do “saco” pela qual se sabia estar prestes a terminar a recolha do pescado.
Uma vez na praia, aberta a rede, a visão prateada daquele peixe saltando provocava manifestações de alegria. Fazia-se então a separação das espécies e a venda fazia-se na lota que ali se improvisava.

Como se imagina, hoje, já pouco se usa este tipo de pesca que deu lugar a outras formas mais rentáveis e com meios técnológicos mais evoluídos.

A imagem que abre o post é a de um postal que terá, pelas minhas contas, mais de cem anos. Foi por ele me ter vindo às mãos, durante uma arrumações, que despertaram em mim todas estas recordações de infância.
M.A.

09/11/08

11 DE NOVEMBRO, DIA DE S. MARTINHO

(Clique para ampliar)


São Martinho é o primeiro dos Santos não Mártires, o primeiro Confessor, que subiu aos altares no Ocidente. A liturgia consagra-lhe um lugar semelhante aos dos Apóstolos, por ter sido ele quem concluiu a evangelização das Gálias. Nasceu na Sabária Panónia) e veio para as Gálias como soldado.Sendo ainda catecúmeno, deu um dia perto de Amiens a um pobre, que Ihe pedia esmola por amor de Cristo, metade da clâmide. Na noite seguinte, Jesus Cristo apareceu-lhe vestido com essa metade que ele dera ao pobre, e disse-lhe: "Martinho, sendo ainda catecúmeno, vestiu-me com este manto".Recebeu o baptismo aos 18 anos. Depois de viajar pelo Oriente, onde se iniciou na vida monástica, faz por algum tempo vida de eremita numa ilha das costas da Ligúria. Finalmente, fez-se discípulo de Santo Hilário, que então florescia na cadeira episcopal de Poitiers e fundou no deserto de Ligugé, a duas léguas da sede do Bispado, um mosteiro para onde se retirou com alguns discípulos. Lançou assim os alicerces do monaquismo nas Gálias.Mas Deus não queria que esta luz, ficasse oculta debaixo do alqueire, e S. Martinho foi arrancado à paz da solidão e revestido da dignidade episcopal, que lhe deu ensejo para desenvolver largamente os dotes do seu coração de apóstolo. Pregou o Evangelho pelos campos da Gália e extirpou de vez os resíduos tenazes do paganismo, que tinham resistido à investida cristã a coberto da superstição e da ignorância do povo. Colocado à frente da diocese de Tours, fundou a célebre abadia de Marmoutiers ou o grande mosteiro aonde com frequência se retirava para viver mais longe do mundo,e mais perto de Deus..Viveu mais de oitenta anos, ocupado sempre com a glória de Deus e a salvação das almas, e morreu em Candes, perto de Tours, em 397.Poucos santos alcançaram a popularidade dele. Só em França há perto de mil igrejas paroquiais e 485 burgos e lugares com o seu nome. Em Roma é notável a igreja de S. Silvestre e S. Martinho, onde se faz a estação de quinta-feira da quarta semana da Quaresma.

Chaves, Luís – Excerto de S. Martinho de Tours”, in separata da Revista de Etnografia nº 1, Museu de Etnografia e História (1963)
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Entre nós, este Santo é festejado pelo povo com os chamados “magustos”, que são essencialmente convívios familiares ou de amigos, onde, por vezes, se canta e dança enquanto se comem castanhas cozidas ou assadas e se bebe água pé ou jeropiga. Nos meios rurais era ao ar livre que o povo se reunia tendo por pólo central um tronco a arder, onde as pessoas, além de se aquecerem assavam igualmente as castanhas. É também o dia em que, por tradição, se mete o espiche nos pipos do vinho da colheita do ano, para se fazer a primeira prova. Convidam-se os amigos para esta cerimónia e há sempre umas fatias de pão caseiro, queijo, azeitonas, presunto e salpicão como acompanhamento. A propósito, para vos divertir, contarei um episódio pitoresco a que, ainda criança, eu assisti:



"A D. Carolina, da Casa de Gateande nunca se esquecia de convidar os meus pais para a prova do vinho da sua quinta. Nesta casa, para além dos petiscos já mencionados, apareciam também na mesa uns deliciosos rojões de que eu muito gostava. Ora, naquele ano, quando foi apontado o trado, (para quem desconheça é um género de broca manual), mais ou menos a meio do pipo e se fez rodar o mesmo para perfurar a madeira, o vinho não jorrou pronto como seria de esperar. Nova tentativa, mais em baixo e o resultado foi o mesmo. Terá sido a terceira tentativa falhada que levou a constatar que o pipo estava praticamente vazio!
Passados alguns instantes de perplexidade, fez-se luz no cérebro da D.Carolina que, no seu jeito de falar, um tanto livre, deitou cá para fora uns tantos “vocábulos pouco vernáculos”, mas que traduziram a sua indignação dirigida ao Sr. Soares, seu esposo, amante nato da lei do menor esforço e amante ainda muito mais fervoroso da pinga que se fazia lá pela quinta.. A algumas desconfianças que ela já tivera, juntou mais uns tantos dados e a explicação, surgiu da sua boca para divertimento de todos nós.
Por cima da adega ficava o celeiro, cujo sobrado, um tanto gasto, tinha já alguns buracos e, um deles, estrategicamente, ficava mesmo por cima do pipo. Como durante um tempo os pipos se deixam com a abertura superior sem o batoque, para o vinho respirar, esse foi o período propício para que um tubo de borracha retirado de um irrigador lá entrasse e permitisse que o Sr. Soares, a pouco e pouco, dia após dia, sem que ninguém suspeitasse, o tivesse trasfegado quase todo para a sua barriguinha. Não fora surgir de permeio o dia de S. Martinho e o Sr. Soares teria conseguido levar a cabo a tarefa de secar a vasilha…
O fim da visita cumpriu-se porque na adega havia mais pipos cheios. Mas… o conteudo daquele primeiro já se fora!

A D. Carolina bem guardara as chaves da adega, mas esqueceu-se do ditado popular que diz
: A necessidade aguça o engenho!”

M.A.



Sociedade de Instrução Musical e Escolar Cruz Quebradense

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