Como tudo começou

05/04/08

MALHÔA E A BURRA DO MOLEIRO

O nosso grande pintor Malhôa não tinha, geralmente, dificuldade em arranjar modelos para os quadros que pintava. Todos se prestavam a posar para ele, até mesmo o povo com quem se cruzava pelo campo. Mas um dia…Há sempre um dia em que as coisas correm de maneira diferente. E, aqui, vou mesmo transcrever o que disse Júlio Dantas:

Uma vez, Malhôa pediu a um moleiro de Pedrógão que lhe emprestasse a burra para modelo, uma jumentinha ruça, bíblica, com atafais novos e patas ligeiras de fauno, que parecia modelada em barro para um presépio de Machado de Castro. O homem estremeceu, rolou o sombreiro nas mãos, e não quis que Malhôa pintasse a burra.

_Mas porquê?
_Pode o animal ter aí uma dor, e para que há-de a gente estar com questões?
_Mas – insistiu o mestre – eu também pintei o retrato do seu filho e da sua mulher, e não lhes fez mal nenhum.

_Deixá-lo! O meu filho e a minha mulher não me custaram dinheiro; e a burra custou-me quinze moedas. Por fim, lá o convenceu, e a jumentinha do moleiro anima hoje com o seu albardão mourisco de volta em meia-lua, uma das mais mais belas paisagens de Malhôa.




MALHÔA E O “PAINEL DAS ALMAS”


Este episódio é ainda Júlio Dantas que o conta, no seu livro Abelhas Doiradas, escrito em 1920.


Uma bela manhã, em Figueiró dos Vinhos, estava Malhoa, com as senhoras, em volta da mesa do almoço, quando a criada anunciou o irmão do regedor de Bairrão (uma das freguesias de Figueiró), que insistia em falar ao artista. Mandaram-no entrar. Era um homem de quarenta anos, cara de Páscoa, tisnado do sol, jaleca de Saragoça, polaina, varapau, um barrete vermelho de campino a rolar nas mãos felpudas:


_Ora com sua licença!
_O mestre perguntou-lhe o que queria. O homem coçou na cabeça, engoliu em seco, olhou em volta as senhoras, gaguejou, riu e acabou por dizer:
_Vocemecê é que é o Senhor Pintor Malhoa?
_Sim senhor. Que é que você quer?
_Queria saber quanto vocemecê leva por pintar umas alminhas do Purgatório para a esmoleira de estrada.


E, lanzudo, desconfiado, hesitante, a face curtida a arrepelar-se num tique nervoso, o zambujo ferrado de estaca no sovaco, contou que fizera aquela promessa às almas se não lhe morressem dois bois eu andavam doentes. O barbeiro da terra tinha-lhe pintado um painel por oito tostões – um ror de dinheiro ! - mas não estava obra acabada. Fora então que o irmão do regedor se lembrara de encomendar a obra ao Senhor Malhoa, que, por muito mal que a fizesse – dizia ele – sempre a havia de fazer melhor. O artista ouviu, acabou de enrolar o cigarro, e, perante o assombro de sua esposa, disse ao homem que aceitava a encomenda e que visse dali a oito dias buscá-lo.
_E quanto é que custa?
_Isso, nós veremos depois.


Passada uma semana, o homem lá veio, calça nova e pescoceira branca domingueira, bateu à porta, entrou, estacou de boca aberta diante de um painel das almas que era uma maravilha, (Malhoa pintara-o com todo o seu talento, sem lhe tirar o sabor da ingénua imaginária popular) e, coçando com ambas as mãos a cabeça chamorra, destampou, aflito:


_Valha-me o Senhor Santo Cristo, que isto vai para mais de oito tostões!
O artista tranquilizou-o. Não era nada. Ofereciam ambos aquele presente às almas do Purgatório. O pobre homem, com o suor do júbilo a empastar-lhe os cabelos da testa, riu, chorou, dançou, travou do painel, embrulhou-o na manta que trazia, e à saída, abraçando respeitosamente o pintor, disse-lhe a meia-voz, para as senhoras não ouvirem, estas palavras que eram a expressão suprema da sua gratidão:
_Ó Senhor Malhoa, venha daí beber um copo de vinho!


E aqui têm como, no pobre estrada de Bairrão, à poeira e ao sol, se está perdendo um retábulo que é a obra carinhosa de um dos príncipes da pintura portuguesa contemporânea.

Nota: -Já que não tenho o tal painel para vos mostrar deixo-vos uma aguarela das "Alminhas do Sr. da Pedra", que existem em Macinhata da Seixa, terra onde nasceu minha Mãe. O desenho a carvão é um auto retrato de Malhôa.

M.A.

2 comentários:

Fatima disse...

Um artista ímpar, sem dúvida....

Anónimo disse...

Há dois anos visitei o Museu Malhôa,nas Caldas da Rainha. Pensei encontrar mais quadros desse Artista naquele espaço, os poucos que se encontram expostos, são de uma beleza díficil de explicar. Só vendo! Francisca

Sociedade de Instrução Musical e Escolar Cruz Quebradense

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