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01/11/10

HABEAS PINHO E DILERMANDO RÉIS



Em Maio de 2008 falamos pela primeira vez neste blog de HABEAS PINHO, um curioso episódio que teve lugar em Campina Grande, Paraíba, Brasil, no ano de 1955.
Quando este episódio aconteceu teve um tal impacto que, segundo se diz, os poemas, desde então, apareceram afixados em todos os escritórios de advogados, cartórios, etc. e, igualmente, em bares.
No primeiro post apresentamos simplesmente os dois poemas que o compõem, com a explicação respectiva. Para recordar o que então foi dito, convidamo-lo a clicar aqui.
Se abordamos, de novo, o mesmo assunto é para apresentar, agora, uma versão em vídeo, que tem a particularidade de ser musicada com um bonito trecho composto por Dilermando Réis. Chama-se este solo de violão “Abismo de Rosas”.



O grande violonista brasileiro de quem falamos (22-9-16 / 2-1-77) ficou conhecido como “O Canhoto de Paraíba”, justamente porque tocava com a mão esquerda, embora num violão igual a qualquer outro. Isto significa que a dificuldade de tocar era acrescida por a colocação das cordas não ter sofrido nenhuma alteração, uma vez que, quando aprendeu, em garoto, tinha mais irmãos a usarem o mesmo instrumento. Compôs e gravou nada mais nada menos de 129 obras para violão.

Esperamos que este post seja, pois, do vosso agrado.

Video recebido num e-mail)
M.A.

28/10/09

FOTOGRAFIA À LÁ MINUTE



Hoje, venho falar de uma figura que, quando eu era criança se encontrava vulgarmente pelas praias, nas romarias, nas praças e jardins públicos mas que, na época actual desapareceu quase completamente. Tem isto a ver com a evolução dos tempos, claro!
Estou a referir-me ao fotógrafo à la minute.

Ele chegava, trazendo nas mãos tudo aquilo de que ia precisar, quer para a fotografia, quer para a sua revelação. Montava o caixote de fotografar sobre um tripé e ficava à espera dos clientes que quisessem deixar-se registar para a posteridade. Nas faces laterais da máquina havia algumas amostras das diferentes fotos que cada um podia escolher Na face traseira da caixa via-se um pano escuro e opaco, onde, às tantas, o homem enfiava a cabeça para fazer o enquadramento das pessoas que iriam ser fotografadas e, na face dianteira estava um fole preto com a objectiva na ponta. Depois, havia ainda um recipiente onde ele punha um líquido com um cheiro muito activo que faria aparecer a imagem no papel e, também, um balde com água onde, por fim, os retratos eram lavadas e finalmente postos a secar. Se repararem na imagem que abre este post lá estão as molas utilizadas para os suspender, no fio amarrado às pernas do tripé.
Quando o grupo estava já a postos, com um sorriso de orelha a orelha, lá vinha a voz do artista, de mão levantada a acenar:_“Olhó o passarinho”! Ao mesmo tempo apertava a bolinha de borracha que tinha na mão e que ligada ao caixote, fazia o disparo da foto.

Por vezes, utilizavam também como fundo para a fotografia umas telas com personagens cómicas. Colocava-se a cabeça no lugar correspondente à dos bonecos pintados e o retrato servia depois para provocar junto da família e dos amigos umas boas gargalhadas.
Um humor de sabor um tanto ingénuo mas, sem dúvida, saudável !
M.A

23/06/09

PUBLICIDADE DE OUTROS TEMPOS



Mais uma velharia descoberta no baú. Trata-se de uma série de anúncios que saíram na imprensa de há alguns anos atrás. A ordem com que os apresento é perfeitamente aleatória, mas podemos, por exemplo, dizer que um deles é mesmo do tempo em que…«ainda os gatos fumavam»…Hoje ganharam juízo e entre todos os que conheço nenhum conserva tal vício!
E quem reconhece a artista que aparece logo no primeiro, o anúncio do TV Magazine? Os de mais idade acertam logo, mas, aos mais novos direi que o seu nome foi Laura Alves (1922-1986), figura cimeira na cena portuguesa que, durante muitos anos nos encantou com o seu talento, tanto no palco, como no cinema e, depois ainda, na televisão.
Uma vez mais, fico com a impressão de que despertei sorrisos em quem viu este post.
Até outro dia, amigos.

M.A.

04/05/09

UMA HISTÓRIA INCRÍVEL



Tenho uma amiga licenciada em Direito, que, depois de exercer durante alguns anos a profissão de advogada, aqui em Lx., se tornou notária numa vila alentejana. Hoje, já reformada, recorda, por vezes, alguns dos episódios curiosos da sua carreira.

Ouvi-lhe há dias esta deliciosa história na qual umas comadres alentejanas pretenderam “enrolar” a, na altura, jovem advogada:
_Aí pela década de 50, certa noite, em horas já avançadas, apareceu-lhe à porta alguém a pedir para ela se deslocar a um monte a fim de fazer um testamento.

Sem hesitação a boa da minha amiga saltou para o que ela designou como um carro de parelha, no qual viera o emissário e, lá seguiram até ao dito monte situado numa zona rural próxima.
Lá chegados, explicaram-lhe que seria o dono da casa o pretenso interessado nos seus serviços.
A iluminação do interior estava um tanto mortiça – disse - ainda feita com candeeiros de petróleo e, lá se foram encaminhando então, para um dos quartos, onde se encontrava o tal compadre interessado em legar os bens.

Um homem estava recostado na cama, amparado por várias almofadas e, havia uma comadre colocada estrategicamente com um dos braços por trás do seu pescoço. O leitores já irão perceber o porquê deste último pormenor…
Para surpresa da minha amiga ( e, mal do compadre que ali estava,) este, afinal, tinha já dado a alma ao Criador, isto é… estava mais do que falecido! Como se depreende, tudo fôra encenado, para a jovem notária cair num conto do vigário!

Só que, ela nunca foi pessoa para brincadeiras e irritada com a desfaçatez das comadres tratou foi de lhes passar logo um valente raspanete e ameaçá-las mesmo com a prisão por aquela fraude intentada. Então, a tal comadre que imaginamos encarregada de abanar a cabeça do defunto, para os "sins" e para o "nãos", manhosamente, ainda tentou explicar o mutismo do homem desta forma:
_«Não!… olhe, srª. doutora… o compadre só não falou ainda porque ele sempre foi muito envergonhoso!...»

Claro, que só pela ignorância das comadres quanto à forma como um testamento se processa, poderíamos acreditar que isto tivesse o desfecho que elas esperavam. Foi portanto o que se pode chamar, uma esperteza alentejana… abortada! Mas, pelo menos a mim, a história fez-me rir. Pela ideia delas, pelo imaginar de toda a cena e, sobretudo, pela deliciosa explicação final, com o curioso termo "envergonhoso", razão pela qual o compadre se mostrava... tão calado!...

M.A.

04/04/09

Um dia nas férias grandes



Era assim em todos os dias das férias grandes.

De manhã faziam-se os deveres escolares (mesmo sendo tempo de férias). À tarde depois do almoço, o calor das tardes e o azul do céu, como que diziam que era tempo de partilhar a brincadeira com as outras crianças.

Nesse dia, o lugar escolhido foi aquele recanto fora da estrada ao fundo da pedreira. Tinha uma vista fantástica para o mar e para a serra. Podia ver-se ao longe o Bugio, e o Palácio da Pena. Os vizinhos estavam por perto, era aqui que tinham as suas hortas onde se entretinham a cultivar os legumes para a família.

A brisa soprava sempre com uma suavidade tal, que mais parecia uma melodiosa composição de violino.

Na saída de casa, já o grupo contava com 4 elementos. As da pedreira e nós.

Estrada fora, para o sítio da brincadeira, caminhávamos ao ritmo que podíamos, ajudando a Ticha, que desde que nasceu nunca soube o gosto de andar pelo seu pé. Uma má formação óssea intra-uterina roubou-lhe essa maravilha do caminhar. Mas, nunca Ela ficou só ou aborrecida. Pelo contrário alinhava em tudo, fazia parte do grupo, ia a “todas”. Era a primeira a dizer; estou pronta!

Aquela tarde não era excepção.

Ora contava eu, caminhava-mos estrada fora, duas a ajudá-la, outra a segurar as muletas, quando a nossa fragilidade de crianças não aguentou a Ticha, e eis que ela cai de rabo no chão no meio da estrada.

Valeu o facto de ser uma zona calma e onde só esporadicamente passavam carros, mas logo naquela hora havia um de querer passar!

A atrapalhação era muita. Nós que não a conseguíamos levantar… os outros que tardavam em se juntar a nós… o carro a querer passar… e a Ticha com a sua fantástica e permanente boa disposição cruza os braços sentada no meio da estrada e diz cantarolando:

Daqui não saio, daqui ninguém me tira!

Perante esta atitude os outros riram e tentaram mais uma vez levantá-la sem êxito. Valeu a ajuda do condutor do carro, que ao ver a atrapalhação do grupo, decidiu vir em auxílio.

Com um sorriso levantou-a, chegou-lhe as muletas, encaminhou-a à berma, afagou-lhe os cabelos e partiu.

Entretanto já o grupo estava todo reunido. Solidário como sempre!

Lá fomos todos juntos para a tarde de brincadeira. Um bom dia, começa com uma boa história, de preferência das que acabem bem…

Começámos por brincar ao Rei manda. Não era o rei que mandava, mas a nossa rainha Ticha.

Seguiu-se o jogo da macaca, do pião, ainda cantámos todos umas cantigas e ficou programado o dia seguinte…

Era hora de regressar para o lanche. Todos merendavam numa ou outra casa, alternadamente.

Que festa fazíamos dos dias das férias grandes…..

26/02/09

ANTÓNIO DIABO


Recordando figuras que eu conheci, falarei hoje de um homem que, artista nasceu, artista viveu, artista morreu e, como já é sina em quem da arte vive, sempre com altos e baixos na sua vida.
Chamava-se António José Pereira da Silva, mas todos o conheciam por “António Diabo”. Nunca soube de onde provinha a alcunha.

Comprava e vendia velharias, mas acima de tudo, dedicava-se a esculpir a madeira como poucos. Inteiramente autodidacta, apenas a sua sensibilidade o levava a produzir as suas obras. Aproveitava a configuração de determinado tronco de árvore para dele fazer emergir, por exemplo, um Cristo crucificado, cheio de expressão, ou numa superfície maior de madeira fazia nascer uma Última Ceia magnífica. As suas obras tinham, habitualmente, um cariz religioso, não sei mesmo se terá feito outras fora desse tema.

Foi, por exemplo, alguém que o Leitão de Barros foi buscar para vir trabalhar na Grande Exposição do Mundo Português, em Lisboa, no ano de 1940!
Tinha também a particularidade de só trabalhar quando precisava de ganhar algum dinheiro, fora disso, se lhe faziam uma encomenda sabiam que a entrega da mesma, tanto podia demorar pouco, como …nunca mais chegar esse dia!

Excêntrico, muito bem disposto, muito cuidadoso no vestir, fazia gala de dizer, com frequência, que tinha muitos fatos em casa.
Imaginem até que, chegou ao requinte, de mandar transformar libras de ouro para usar como botões, em determinado casaco preto que tinha. E, com esta indumentária se passeou na terra. Sei, que foi precisamente numa ourivesaria de familiares meus que esses botões foram comprados!

Curiosidades que vão saindo do baú…

(Elementos recolhidos no livro “Um Olhar Sobre o Passado” de António César Guedes)
M.A.

16/02/09

JUSTIFICAÇÃO DE BÊBADO:

Offerecendo-se vinho em certa occasião a um chapado borracho, exclamou elle: venha de lá já, agora e logo, e mais; venha hoje, ao depois, sempre e sem nunca cessar. E se bem dizia melhor o fazia.
Querendo depois justificar-se perante o confessor, que o reprehendia do excessivo amor que tinha ao vinho e ao abuso que delle fazia, respondeu-lhe: _Meu padre, o bom vinho faz o bom sangue; o bom sangue produz bom humor: o bom humor leva-nos aos bons pensamentos: os bons pensamentos persuadem as boas obras: e as boas obras abrem as portas do céo.

Retirado do livro «Gente do Campo», de 1870. Conservada a grafia usada no livro)

M.A.

29/12/08

MONUMENTO AO EÇA DE QUEIROZ

(Clique para ampliar)




Quem sobe a Rua do Alecrim e chega ao Largo Barão de Quintela depara com um bonito monumento no centro de um canteiro de relva. São duas figuras em bronze, uma representando o escritor Eça de Queiroz que segura nos braços uma figura feminina, desnuda, apenas coberta com leves véus. Esta segunda figura é uma alegoria à Verdade. Na base, há, esculpida, uma frase do próprio Eça, escrita em português antigo– “Sobre a nudez forte da verdade o manto diáphano da phantasia”. Digamos que esta seria uma das características da sua forma de escrever.

Este grupo escultórico, ali colocado em 26 de Julho de 2001, é uma réplica de um outro, em pedra, feito em 1903 por Teixeira Lopes e inaugurada no mesmo ano. Devido aos sucessivos vandalismos que nele foram fazendo, houve que o substituir por este, em bronze, guardando-se, muito acertadamente, o original no Museu da Cidade.

Ora, se vos falo hoje nisto, é apenas para vos contar dois episódios bem humorados relacionados com esta estátua.

O primeiro passou-se entre o meu pai e um seu conhecido, pessoa pouco letrada mas, que nunca perdia ocasião de ‘se dar ares’ e fazer alarde de alguma coisa que, a seus olhos pudesse impressionar os outros. A sua mania da grandeza chegou ao ponto de mandar fazer cartões de visita em que os seus apelidos Marques de Sá mudaram para “Marquês de Sá”. Igualmente um dia mostrando ao meu pai as instalações dos galináceos, no seu quintal, apontou o cercado dos patos dizendo: “aqui é o meu patíbulo”!

Mas contemos então as tais histórias relacionadas com o monumento:

Desta vez, este nosso homem viera a Lisboa e tendo visto a estátua a que nos referimos, resolvera mesmo escrever num papel a frase que nela encontrara, para a repetir depois, ao meu pai, com o seu ar mais solene e erudito. Eu tentarei reproduzir na escrita o modo como ele a leu:
_ “Sobre a núdes forte da vérdade, o manto diapano da pantásia”…

Anos mais tarde numa conversa de amigas, tendo eu contado este episódio, alguém presente respondeu com um outro a que achei também imensa graça e, portanto, aqui o deixo para os meus leitores:

Aquando da inauguração, da primeira estátua, havia em determinada casa de Lisboa ( quem me contou disse ser de gente de sua família) uma rapariguita que, antes, estivera a servir em casa do próprio Eça de Queiroz. Então, a sua patroa da altura, achando que ela deveria gostar de ir ver o descerrar da estátua do antigo patrão, nesse dia, mandou-a à referida cerimónia. No regresso quis saber as suas impressões e o que ouviu terá sido mais ou menos isto:

_“Pois…foi muito bonito ver toda aquela festa, com música e tudo… achei que o Sr. Dr. até estava muito parecido com o que ele era… agora a senhora dele… essa é que, não estava nada parecida e…até, nem teve jeito nenhum mostrarem-na ali assim… toda em pelota!”

Espero que se tenham divertido com estas bem humoradas histórias de outros tempos!

P.S- A foto que ilustra o post é do blog “Olhares”. Escolhi-a por nela poderem ler a frase a que me refiro no primeiro episódio.

M.A.

09/07/08

O avô cesteiro

O que eu gostava de ir a Ponte de Lima visitar o avô António!

Alto, magro, com uns lindos olhos azuis, com um sorriso sereno e muito terno.

Aqueles cestos que ele fazia eram lindos, e a destreza daquelas mãos, fascinavam-me.

A madeira de carvalho, mimosa ou cerejeira era bem aquecida para depois ser rachada com um machado em tiras muito finas.

Quando estava cortada muito tempo, era preciso pôr as tiras de molho.....

Antes do almoço, lá ia a miudagem com o avô até ao riacho do Trovela, onde as madeiras estavam a banhos….., e claro está, como isto acontecia sempre no Verão, a criançada molhava o pezinho, brincava com aquela água cristalina , e passava aquela pequena ponte de madeira vezes sem fim para cá e para lá!

Chegava a hora de comer e lá ia tudo de novo até casa que ficava bem juntinha à queda de água, que enchia o espaço com aquela melodia que nos dava a sensação de infinito!

E…. terminada a refeição, lá ia o avô fazer cestos pequenos para a criançada…..!

Com o seu cutelo e o cavalete para aplainar a madeira, lá fazia as cestas de vindima, os cestos das mordomas, os balaios (eram uns cestos fininhos, que às vezes ganhávamos de presente).

Este era sempre um dia diferente e cheio de felicidade!

E como "filho de peixe sabe nadar", o meu pai também fez muitos cestos seguindo a arte do avô António.

Então como ia eu saber estes nomes e pormenores todos, se o meu papá não mos tivesse segredado.....???

Na oficina do cesteiro”

Aguarela sobre papel, 51x61

Edmundo Cruz

fc

30/05/08

HABEAS PINHO

Este, é o nome dado a um famoso documento que figura hoje emoldurado em muitos escritórios de advogados e bares do Nordeste brasileiro.
Na Paraíba, em 1955, alguns elementos boémios faziam uma serenata e foram presos. Eles foram libertados no dia seguinte, mas o violão ficou retido. Tomando conhecimento do acontecido, o famoso poeta e senador Ronaldo Cunha Lima enviou uma petição ao Juiz da Comarca, em verso, solicitando a entrega do instrumento musical:

Senhor Juiz
Roberto Pessoa de Sousa:

O instrumento do “crime” que se arrola
Nesse processo de contravenção
Não é faca, revolver ou pistola,
Simplesmente Doutor, é um violão.

Um violão, Doutor, que em verdade…
Não feriu nem matou um cidadão
Feriu, sim, mas a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade
O crime a ele nunca se mistura
Entre ambos inexiste afinidade

O violão é próprio dos cantores
Dos menestréis de alma enternecida
Que cantam mágoas que povoam a vida
E sufocam as suas próprias dores.

O violão é música e é canção
É sentimento, é vida, é alegria
É pureza e é néctar que extasia
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório.
Mas seu destino, não, se perpetua.
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório.

Ele, Doutor que suave lenitivo
Para a alma da noite em solidão,
Não se adapta, jamais, em um arquivo
Sem gemer sua prima e seu bordão

Mande entregá-lo, pelo amor da noite
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno açoite
De suas cordas finas e sonoras.

Liberte o violão, Doutor Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz
Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua um desgraçado,
Derramando na praça suas dores?

Mande pois libertá-lo da agonia
(a consciência assim nos insinua)
Não sufoque o cantar que vem da rua,
Que vem da noite para saudar o dia.

É o apelo que lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento
Juntada desta aos autos, nós pedimos
E pedimos, enfim, deferimento.

O Juiz Roberto Pessoa de Sousa, por sua vez despachou utilizando a mesma linguagem do poeta Ronaldo Cunha Lima: o verso popular.

Recebo a petição escrita em verso
E, despachando-a sem autuação,
Verbero o acto vil, rude e perverso,
Que prende, no Cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,
Nos confins de um arquivo, em sombra imerso,
É desumana e vil destruição
De tudo o que há de belo no universo.

Que seja Sol, ainda que a desoras,
E volte à rua, em vida transviada,
Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de luz, plena madrugada,
Venha tocar à porta do Juiz.

Nota-Digam lá que não é um encanto isto que leram? Se clicarem aqui terão oportunidade de ouvir também um bonito solo de violão que acompanha este poético relato, ainda que não completo na parte que pertence à sentença do Juiz.

M.A.

21/05/08

CARTÕES DE CELULOIDE

Nos finais do Sec.XIX era de bom-tom enviar nas datas festivas, especialmente nos aniversários e no Natal, cartões de celulóide decorados com motivos florais
em baixo relevo e complementados por ornamentos de seda ou de veludo.
O primeiro material plástico foi patenteado em 1855 pelo químico britânico Alexander Parkes (1813-1890). Alguns anos depois, os americanos Jonh Wesley Hyatt e Short Hills criaram o celulóide, uma classe de compostos obtido a partir da nitrocelulose e de cânfora. Como é um material flexível, transarente e resistente à humidade começou por ter múltiplas aplicações, embora seja conhecido sobretudo por ser utilizado na produção de películas para fotografia e cinema. Mas sendo altamente inflamável, foi progressivamente substituído por outros materiais.
O celulóide é fácil de moldar, bastando para isso ser aquecido com água ou ar quentes e aceita muito bem a estampagem por pressão. Como também pode ser cortado, laminado, dobrado e furado, depressa foi adoptado para a produção de cartões de boas festas e felicitações por ocasiões festivas. Actualmente são uma raridade. Nesta colecção de dezenas de cartões de celulóide, fica evidente o gosto dominante no final do Sec. XIX e primeiras décadas do Sec. XX pelos ornatos com anjos rechonchudos por entre motivos florais de cores suaves em que predominam os azuis e os rosas. Hoje, tempo de mensagens electrónicas estas estampas são pequenas obras de arte que quase só se encontram em alfarrabistas.
Texto e fotos do "Club do Coleccionador"
M.A.

13/04/08

O MEU AMIGO A.



Tenho por hábito dizer que existe uma família por obrigação e outra por devoção: Os nossos Amigos! E julgo que concordam comigo, pois, em relação a esta segunda “família” nós vamos escolhendo e conservando apenas aqueles que nos interessam, o que efectivamente não é possível fazer, quanto à primeira.
Vem isto a propósito de alguém, que já não se encontra entre nós e de quem me apetece falar hoje. Tínhamos bastantes afinidades na forma de encarar a vida e conversar sobre ela, ainda que, entre as nossas idades, não fossem poucos os anos de diferença.

Era um homem bom, um homem de paz, muito sereno, de voz pausada, que tendo ido em novo para o Ultramar, por lá foi vivendo do comércio de exportação de madeiras. Chegou a atingir um certo desafogo financeiro que, felizmente, nunca lhe tirou as características de homem simples que sempre foi. Pela sua rectidão de carácter era uma pessoa muito respeitada tanto pelos brancos como pelos pretos, facto de que, em boa verdade, nem todos os que por lá andaram se poderão orgulhar. Ouvi-lhe um dia dizer que nunca precisara de recorrer às autoridades para ter gente a trabalhar para si.

Sobre todos os anos passados no mato contou-nos inúmeros episódios, alguns muito curiosos mesmo. Mas, ao contrário de outros “africanistas”que conheci, fazia-o sempre com uma certa humildade, bem diferente daquele espírito fanfarrão característico.
Bom, feita esta descrição resta acrescentar que era igualmente um homem cheio de humor, um humor subtil como poderão avaliar daqui a pouco.

Curiosamente, a sua esposa era a antítese dele. Sendo igualmente uma excelente pessoa, nem a serenidade nem a calma lhe assentavam como atributos próprios. Toda extrovertida, falava alto e em bom som e dizia logo, num rompante, tudo quanto tinha para dizer, empregando, se preciso fosse, “as vinte e três letras do abecedário”…Percebem o que quero dizer, não é assim?
Feita a descrição das personagens imaginem agora esta cena:

Estava eu numa cama do hospital após uma operação a um ouvido, quando, eles os dois, me entraram no quarto. A conversa vinha acesa, da parte dela, e apercebi-me de que a divergência estava relacionada com uma mudança de casa que, na altura, faziam.
Fui em defesa dele, já que era o que se impunha, “dada a diferença de forças ser por demais evidente”: Ela vinha mesmo muito zangada…

Conseguindo interromper a torrente de palavras dela, foi então, que o bom do meu Amigo A. teve oportunidade de, com a sua voz pausada, proferir uma das frases que jamais esqueci e que, ainda hoje, acho, definiu, com bastante graça, a sua cara metade:

_Ó menina, quando eu pego no martelo e num prego com a ideia de ir colocar um quadro na parede, esta mulher já me está a dizer que o quadro ficou torto!
Quantas pessoas conhecemos nós a quem esta mesma frase assentaria como uma luva?!...

P.S.- É possível que um dia volte para lhes contar, da mesma pessoa, um outro episódio que, sem a sua intervenção, teria tido consequências bem graves.

M.A.

12/04/08

GARRAIADA EM ALGÉS



Se a máquina do tempo nos fizesse regressar até 1908 poderíamos ter tido oportunidade de assistir a esta garraiada em Algés, que, segundo se diz na notícia, foi organizada pelo Real Club Tauromachico de Lisboa.
À esquerda os ninõs de Sevilha Limeno e Gallito como aguazis.

(Illustração Portuguesa)

M.A.

09/04/08

CAMILO CASTELO BRANCO COM HUMOR






Quem não conhece este nome, como uma das grandes glórias da literatura portuguesa?
Geralmente ele é lembrado pelo que escreveu, pelos seus amores atribulados, que até à prisão o levaram, pela loucura do seu filho Jorge, pela cegueira que o atacou e até também pelo fim de vida que teve, tão trágico!

Os seus escritos tinham na maioria das vezes um enredo dramático e isso terá sido comentado um dia por Ana Plácido, sua companheira. Como resposta, Camilo escreveu em poucos dias e, atirou para o regaço dela, o seu livro Eusébio Macário cuja trama, diferente de todos os demais, mostra bem a capacidade inventiva do escritor de quem falamos.

Ora, neste blog, como gosto de explorar mais o lado positivo da vida, entendi por bem ir buscar dois episódios que nos mostram um Camilo bem-humorado e com um espírito e graça incontestáveis.


Um dia pediu Camilo a um amigo para esperar na estação de Famalicão o comboio das tantas horas e mandar acompanhar a S. Miguel de Seide determinado bacharel que devia chegar nesse comboio.
O comboio chegou, mas, por mais que o amigo indagasse, não descortinou nenhum bacharel com destino a S.Miguel de Seide. Decerto o bacharel havia perdido o comboio! Nisto, ouviu um empregado da estação, exclamar para um carregador, agitando na mão uma guia:
_Este burro é para ir para Seide!
Num momento tudo se esclareceu. Do comboio fora descarregado um burro que se destinava a Camilo. O bacharel era o burro!


Havia no Porto, na Rua dos Clérigos, um negociante que tinha uma cara muito bochechuda. Em compensação, tinha uma filha que era o mais bonito palminho de cara de todo o bairro. Camilo, sempre que passava e via a rapariga dizia-lhe adeus e sorria, o que não agradava ao comerciante, que, por certo, conhecia a fama de Camilo, como conquistador. Ora, uma ocasião em que o romancista se desfazia em sorrisos e cumprimentos para a pequena, o pai desta, rompeu da loja com um côvado na mão e, em ar ameaçador, voltou-se para Camilo:

_Ó seu sem-vergonha, se vem para aqui desencaminhar a minha filha…
_Sem-vergonha, não! Quem não tem vergonha é você, seu comerciante das dúzias!
_Ah! Eu é que não tenho vergonha?
_Pois claro! – ripostou Camilo – Quando se tem umas bochechas como as suas, não se vem para a rua sem lhes enfiar uma calças!

………………………………………………


P.S.-Quem escreveu isto foi Luís de Oliveira Guimarães e, no volume de onde retirei estes episódios, aparece também, logo nas primeiras páginas esta frase do próprio Camilo:
“É preciso ter chorado para imortalizar o riso no livro, na estrofe, na sentença, na palavra.”

M.A.

07/04/08

A PONTE DO RIALTO



O Grande Canal, em Veneza, é atravessado por três pontes antigas e, há pouco tempo, por mais uma, perto da Estação do caminho de ferro. A mais importante delas é, sem dúvida, a Ponte do Rialto, situada no coração da cidade. Ela é considerada um ponto de visita para qualquer estrangeiro e, dizem, local de passagem obrigatória, para todos os venezianos.

No Sec. XII, neste local, fazia-se a travessia sobre um estrado colocado sobre barcas, depois apareceram algumas pontes em madeira, que, rapidamente se deterioraram até que, em 1524, decidiram construir a primeira, em pedra. A ponte teve então início em 1588, foi seu arquitecto António da Ponte e, a inauguração fez-se em 1591. No entanto, a cobertura em arcos, para as lojas, tornando-a com o aspecto que tem agora, só apareceria mais tarde.

Mas é precisamente para vos contar uma lenda relacionada com esta afirmação que se faz, de que, pela Ponte do Rialto toda a gente passa com certeza que eu aqui estou, junto dos meus leitores:

Diz-se, que, ao regressar da sua grande viagem à China, juntamente com seu irmão Matteo e seu filho Marco, Nicolò Polo chegou a Veneza vestido tão andrajosamente que, sua mulher pegou logo nessas roupas e ofereceu-as ao primeiro pedinte que por ali passou. Nicolò zangou-se com ela mas, depois de pensar um pouco, saiu de casa e encaminhou-se para a Ponte do Rialto disposto a esperar. Faziam-lhe perguntas a que ele não respondia. O tempo passava , sendo cada vez maior o número de pessoas que se juntava à sua volta. E claro, a fazer jus à lenda, também o dito pedinte apareceu por ali. Então, Nicolo pulou de alegria por o seu raciocínio ter batido certo. Comprou uma roupa nova para o pedinte e regressou a casa, feliz, de novo, com os seus farrapos!

É que, nos forros dos ditos trapos, ele escondera, cosendo-as, jóias e pedras preciosas que valiam uma fortuna!
.................................

P.S. Elementos da lenda e foto retirados da revista Altaïr.

M.A.

05/04/08

MALHÔA E A BURRA DO MOLEIRO

O nosso grande pintor Malhôa não tinha, geralmente, dificuldade em arranjar modelos para os quadros que pintava. Todos se prestavam a posar para ele, até mesmo o povo com quem se cruzava pelo campo. Mas um dia…Há sempre um dia em que as coisas correm de maneira diferente. E, aqui, vou mesmo transcrever o que disse Júlio Dantas:

Uma vez, Malhôa pediu a um moleiro de Pedrógão que lhe emprestasse a burra para modelo, uma jumentinha ruça, bíblica, com atafais novos e patas ligeiras de fauno, que parecia modelada em barro para um presépio de Machado de Castro. O homem estremeceu, rolou o sombreiro nas mãos, e não quis que Malhôa pintasse a burra.

_Mas porquê?
_Pode o animal ter aí uma dor, e para que há-de a gente estar com questões?
_Mas – insistiu o mestre – eu também pintei o retrato do seu filho e da sua mulher, e não lhes fez mal nenhum.

_Deixá-lo! O meu filho e a minha mulher não me custaram dinheiro; e a burra custou-me quinze moedas. Por fim, lá o convenceu, e a jumentinha do moleiro anima hoje com o seu albardão mourisco de volta em meia-lua, uma das mais mais belas paisagens de Malhôa.




MALHÔA E O “PAINEL DAS ALMAS”


Este episódio é ainda Júlio Dantas que o conta, no seu livro Abelhas Doiradas, escrito em 1920.


Uma bela manhã, em Figueiró dos Vinhos, estava Malhoa, com as senhoras, em volta da mesa do almoço, quando a criada anunciou o irmão do regedor de Bairrão (uma das freguesias de Figueiró), que insistia em falar ao artista. Mandaram-no entrar. Era um homem de quarenta anos, cara de Páscoa, tisnado do sol, jaleca de Saragoça, polaina, varapau, um barrete vermelho de campino a rolar nas mãos felpudas:


_Ora com sua licença!
_O mestre perguntou-lhe o que queria. O homem coçou na cabeça, engoliu em seco, olhou em volta as senhoras, gaguejou, riu e acabou por dizer:
_Vocemecê é que é o Senhor Pintor Malhoa?
_Sim senhor. Que é que você quer?
_Queria saber quanto vocemecê leva por pintar umas alminhas do Purgatório para a esmoleira de estrada.


E, lanzudo, desconfiado, hesitante, a face curtida a arrepelar-se num tique nervoso, o zambujo ferrado de estaca no sovaco, contou que fizera aquela promessa às almas se não lhe morressem dois bois eu andavam doentes. O barbeiro da terra tinha-lhe pintado um painel por oito tostões – um ror de dinheiro ! - mas não estava obra acabada. Fora então que o irmão do regedor se lembrara de encomendar a obra ao Senhor Malhoa, que, por muito mal que a fizesse – dizia ele – sempre a havia de fazer melhor. O artista ouviu, acabou de enrolar o cigarro, e, perante o assombro de sua esposa, disse ao homem que aceitava a encomenda e que visse dali a oito dias buscá-lo.
_E quanto é que custa?
_Isso, nós veremos depois.


Passada uma semana, o homem lá veio, calça nova e pescoceira branca domingueira, bateu à porta, entrou, estacou de boca aberta diante de um painel das almas que era uma maravilha, (Malhoa pintara-o com todo o seu talento, sem lhe tirar o sabor da ingénua imaginária popular) e, coçando com ambas as mãos a cabeça chamorra, destampou, aflito:


_Valha-me o Senhor Santo Cristo, que isto vai para mais de oito tostões!
O artista tranquilizou-o. Não era nada. Ofereciam ambos aquele presente às almas do Purgatório. O pobre homem, com o suor do júbilo a empastar-lhe os cabelos da testa, riu, chorou, dançou, travou do painel, embrulhou-o na manta que trazia, e à saída, abraçando respeitosamente o pintor, disse-lhe a meia-voz, para as senhoras não ouvirem, estas palavras que eram a expressão suprema da sua gratidão:
_Ó Senhor Malhoa, venha daí beber um copo de vinho!


E aqui têm como, no pobre estrada de Bairrão, à poeira e ao sol, se está perdendo um retábulo que é a obra carinhosa de um dos príncipes da pintura portuguesa contemporânea.

Nota: -Já que não tenho o tal painel para vos mostrar deixo-vos uma aguarela das "Alminhas do Sr. da Pedra", que existem em Macinhata da Seixa, terra onde nasceu minha Mãe. O desenho a carvão é um auto retrato de Malhôa.

M.A.

31/03/08

FALANDO DE JORGE AMADO



O post sobre a pastelaria do Sr Natário porque referiu Jorge Amado, trouxe-me à lembrança um episódio, passado em 1988, que li, no seu livro Navagação de Cabotagem. Irei transcrevê-lo com o intuito de mostrar que, fazer feliz alguém, por vezes, até nem é nada, mesmo nada difícil …

“O sapo enorme, de cerâmica, abandonado no jardim da casa de Carybé, exposto à chuva, coberto de limo. Os donos da casa não estão, não posso perder a viagem, grito pelo Aurélio, (o motorista de J.A.) transportamos o sapo para o carro. Aurélio chama minha atenção para um detalhe precioso: o grande sapo carrega nas costas um filhote pequenino, lindo.
Colocado no parapeito do janelão da sala de jantar, sobre os azulejos de Carybé, as armas de Oxossi e as de Oxum, o sapão assumiu a presidência da confraria de sapos que se espalha nos jardins, sob a piscina, ao lado da varanda, em cima dos móveis, nas estantes, em todas as partes da casa, pois o sapo é o meu bicho. Sapos de todos os feitios, esculpidos nas matérias mais diversas – cerâmica, pedra-sabão, papel machê, ferro, acrílico, vindos dos quatro cantos do mundo: do México, da Tailândia , da Inglaterra, do Peru, de Ouro Preto, do Cambodja, de Portugal, da China e por aí vai. Até hoje Carybé não se deu conta do roubo, espero que jamais o descubra.

Logo que viemos morar na Bahia, durante meses e meses um sapo cururu habitou no jardim, numa espécie de tanque ali existente. Também ele enorme, quase do tamanho do que roubei de Carybé. Só que o de Carybé é de barro, o nosso era vivo e, nos dias de muita chuva abrigava-se na varanda onde cantava a sua alegria de viver.

Caribe morria de inveja do nosso sapo cururu, a cobiça transparecia-lhe no rosto de ver Zélia coçar as costas do bicho que inflava de contentamento. Zélia gravou-lhe o coaxar poderoso num pequeno aparelho portátil que levamos escondido a casa de Carybé em dia de chuva. Conversávamos no atelier, Nancy servia gostosuras, bebíamos um trago, Zélia achou maneira de colocar o gravador em funcionamento no interior da bolsa, semi-aberta, o canto do sapo cururu ressoou, os olhos de Carybé se iluminaram:
_’tão ouvindo? Tem um sapo cururu vivendo no jardim…
Precipitou-se escada abaixo, sob a chuva, até hoje procura seu sapo cururu.”
…………………………………………

P.S. Digam-me então, leitores, se não era preciosa a amizade de quem até gravou o canto do sapo cururu, para fazer um amigo feliz

M.A.

28/03/08



RECORDANDO


“O SERINGA” 28/3



O indivíduo que usava esta alcunha era uma daquelas figuras típicas que quase todas as terras têm. Este, da minha terra, que eu conheci aí pela década de 40/50, é recordado pelas respostas prontas e cheias de humor. Embora a vida que tinha não lhe deixasse muitas razões para tal, o copito que bebia a mais, superava isso e despertava-lhe a inspiração.


Comia o que lhe davam, dormia onde podia e deambulava durante o dia pelos cafés, onde todos gostavam de o ouvir. A sua forma de vestir era versátil, tanto o podíamos encontrar com vestuário normal, como de calças de fantasia, fraque e chapéu de diplomata. Dependia do que recebia..

O seu verdadeiro apelido era Andrade e, à época, o presidente da Câmara tinha o mesmo nome. Ora um dia, passando o “Seringa” perto de um alfaiate, travou-se este diálogo:

_Ó Doutor Andrade, então como vão as coisas lá pela Câmara?
O nosso amigo empertigou-se e falando alto e bom som, de braço estendido ao jeito de qualquer parlamentar, respondeu:


_Ora vamos lá a ter respeitinho e mais cuidado. Nada de confusões! Aqui na terra há dois Andrades e nenhum deles é doutor ouviu? Um deles sou eu que muito me prezo de ser Andrade e o outro…bem, o outro é o senhor Andrade ali da Câmara, cabide onde penduro o meu chapéu! Percebeu?


Passando um dia perto de um ferrador que tinha à porta um macaco e, encontrando um grupo de rapazes divertidos com as cabriolas do símio, fez esta recomendação:
_É assim mesmo, rapazes! É bom que comeceis a conhecer, desde novos o vosso pai. Boa tarde!

Não tinha por hábito mendigar antes “perguntava”, com um ar muito circunspecto e na sua voz meio afalsetada:
_Por acaso, o meu amigo não terá por aí, qualquer moeda que eu possa ir pôr a juros , ali no Marcelino? O que, traduzido à letra queria dizer que desejava uns escudos para mais um copito na tasca da estreita rua do Marcelino.

E, para finalizar, esta outra, quando, ao fazer a solicitação do costume, um médico da terra, entretido como estava com o jogo do dominó, meteu a mão ao bolso e lhe entregou uma moeda de 5$00. Como alguém tivesse comentado ao “Seringa” que ele estava em dia de sorte, a resposta veio pronta:

_Olhem a avaria! O dr .F. quando vai ver um doente, não lhe faz nada e cobra logo
50$00!
Espero que se tenham divertido com estes episódios reais.

M.A.

Nota:- Foto e alguns elementos retirados do livro “Porta sem trinco” de Rafael Godinho

24/03/08

BARBEIRO, MEDICINA E… BOM-HUMOR


Hoje venho contar-lhes um episódio verídico, passado há já bastantes anos e que me foi relatado por quem a ele assistiu. Tratava-se de um velho amigo da nossa casa, Bernardo de Albuquerque, proprietário de uma quinta situada na Touça, uma pequena localidade pertencente a Freixo-de-Numão.
Digamos que este relato se insere na cultura e tradição do viver do nosso povo rural e, deste modo, pretendo salientar o bom-humor associado a estas coisas.
Já que vou descrever o dito episódio, o mais aproximadamente possível da forma como o ouvi, (de acordo com as conveniências deste blogue) irei pedir ao leitor que o imagine, “com um português bem mais explícito,” na sua parte final.






Nessa dita terreola o barbeiro acumulava, com as funções do seu ofício, várias outras, que já não tinham nada a ver com as barbas e os cabelos, mas eram habituais naquela época: _As práticas de medicina. Estas, incluíam as sangrias, aplicação de sanguessugas e mesmo o arrancamento de dentes! Se a memória me não falha, nas PUPILAS DO SR. REITOR aparece uma personagem semelhante, cujo papel , no filme com o mesmo título, foi representado pelo saudoso actor Costinha.
Pois bem, este nosso “Fígaro-Dr.”de quem falo, foi, um dia, procurado por uma mulherzinha, com um filho pequeno, o qual se queixava de uma maleita qualquer. Após o exame feito à criança o “diagnóstico-receita” foi o seguinte:
_”Já sei…Isto, é uma intermitente renitente, remetida aos queixos ambos. Vá vocemecê para casa, dê-lhe um escalda pés, às mãos, com água tépida bem quente e a doença do rapaz não vale mesmo três… Bufas!...”

Ps: Pint.óleo 38x46 (1999) da autora do texto

M.A.

17/02/08

BONECAS - História de 3 gerações

Meus caros leitores:

Pela minha boca falarão hoje três bonecas, ou, melhor dizendo, duas bonecas e um boneco. Convém que estas coisas fiquem "bem explicadas" para não haver equívocos.

Pertenceu cada qual a uma geração diferente, isto é, as suas donas foram Avó, Mãe e Neta, de uma mesma família. As histórias serão contadas em sentido inverso à idade destas três personagens.

Posto isto, chamemos em primeiro lugar "o rapaz" e ouçamos a sua história:

"_Estamos no ano de 1965 e aproxima-se o Natal. Eu e mais "Chorões," como na altura se chamava aos bonecos como eu, estávamos expostos no estabelecimento "Luciano Matos", no Porto. A razão da escolha residiu no facto de eu ter olhos verdes como os da Menina a quem eu me destinava. Como acontece com os humanos, também em nós, os bonecos, um pequeno nada faz a diferença! Fui um felizardo porque tive logo uma mobília de quarto e várias toilettes muito bonitas.

Na manhã do dia de Natal, quando a Menina, (na altura com três anos) desceu ao rés-do-chão, encontrou-me a mim e todas aquelas "outras maravilhas" trazidas pelo Menino Jesus, espalhadas sobre um enorme Presépio, como era uso fazer-se, em casa dos seus Avós."

"_Pois… Desculpem-me apresentar-me com este aspecto. O meu percurso de vida foi já mais longo…Não consigo precisar ao certo mas ultrapassei já os 60 anos! Hoje, só o meu rosto se mantém com este aspecto juvenil, os meus olhos abrem e fecham como sempre e o meu sorriso continua bonito. Pernas também tive, claro, mas acontece que a Menina que brincava comigo, achou que eu seria capaz de me sentar, dobrando-as e, o resultado foi desastroso. Já lhe perdoei porque ela não o fez por mal!… Quem me ofereceu manteve sempre com a minha dona uma relação de amizade, muito profunda, até ao fim da sua vida."

"_Nesta família sou eu a decana das bonecas. Outra não existe que me retire esse título. Mesmo com a idade o meu olhar não perdeu o brilho de outros tempos; sofri, no entanto, alguns problemas de saúde, como por exemplo a amputação de um ante-braço. Como é o esquerdo, não me faz assim grande falta…Reparem agora nas articulações dos meus joelhos. Tal como as dos cotovelos, funcionam com um sistema de elásticos, nada sofisticado convenhamos, mas era a moda da altura.

Não tenho registo exacto da minha idade apenas sei que a criança que brincou comigo nasceu , imaginem, em 1907! Naturalmente, que já não se encontra entre nós…

Compraram-me no Porto, num estabelecimento que tinha o nome de "Armazéns Hermínios"e, para verem só como sou diferente de qualquer outra boneca, a minha cabeleira é feita com cabelo que terá sido cortado ao da Menina, minha dona.! Não sei se isso era hábito, na altura ( a memória já me vai falhando) mas, confesso que não conheço outro caso semelhante.

Esta minha toilette não é da mesma época. Feita na década de 40/50, é composta por um vestido azul com bolinhas rosa, bordadas, nas mangas e gola. Sobre este tenho um bibe vermelho e branco. Não esqueçamos que, estávamos na altura em que os bibes faziam parte integrante do vestuário das meninas!"

Do silêncio de um armário saíram estes três bonecos para contarem as suas histórias. Oxalá tenha sido agradável, para todos, lê-las. Em alguma das minhas leitoras, quem sabe, terão despertado também a saudade, das bonecas que a acompanharam na sua infância.

M.A.

Sociedade de Instrução Musical e Escolar Cruz Quebradense

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