Como tudo começou

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09/02/14

DOIS POEMAS DE JOSÉ JORGE LETRIA




Hoje, escolhemos para os nossos leitores dois inspirados poemas do livro “Produto Interno Líquido” de José Jorge Letria. Quem sabe se para alguns vai ser mesmo uma surpresa tomarem contacto com a poesia deste autor. Se acaso pretenderem conhecer  um pouco mais a seu respeito apenas tereis que clicar aqui.
E agora, amigos tem lugar a poesia:


OS FILHOS

Os filhos estão sempre de partida, já não ficam,
cresceram, têm pressa, têm as suas vidas,
entram e saem, já não se lembram da cor
dos brinquedos que lhes entretinham o sono,
das histórias que lhes traziam o riso.
Os filhos já têm filhos, e casas para terem
os filhos, e compromissos para honrar,
e famílias para alimentar. É assim a vida.
Às vezes fala-se, só de passagem, daquilo
qwue um dia ficará para os filhos:
os livros? A casa? O faqueiro de prata?
Tudo tem o seu tempo e a sua lógica.
É um ciclo que se cumpre e se repete.
Já foi assim antes com os pais, com os avós,
com todos os outros, mais longínquos,
de que só os retratos dão notícia, testemunho.
O tempo dos filhos deixou de ser o meu tempo.
Telefonam de longe, mandam postais,
compram pequenas coisas para nos lembrarmos
dos sítios por onde passaram, onde ficaram.
Eles partem e nós ficamos. Eles partem
um pouco mais todos os dias, cumprindo o ciclo,
escalando os degraus velozes de uma escada
que leva sempre mais longe, mais alto.
E nós ficamos fazendo contas aos dias,
acariciando os objectos do primordial afecto,
dos meses mais mansos e mais quentes da infância.
Um dia os filhos falarão assim dos seus filhos,
como quem envelhece recusando o esquecimento.


UMA CADELA ENQUANTO ESPERA

A minha cadela nada sabe de metafísica,
nem dos mistérios que a palavra encerra
enquanto corre atrás dos pássaros e das sombras
nos arbustos projectados sobre a terra batida.
A minha cadela escolhe os recantos
mais frescos do soalho para dormir
e sabe que os dias se repetem iguais e previsíveis,
sensível às ausências e à rudeza das vozes.
Com ela, a casa parece maior
porque há um fio de afecto a ligar os quartos,
a unir os gestos, a adoçar os chamamentos.
A minha cadela nada sabe de livros
nem dos mistérios que os povoam,
ignorando até os títulos daqueles que roeu
enquanto mudava a dentição.
A minha cadela foi  precedida por mortes
de outras cadelas que a doença não poupou
e que eu chorei, como quem chora sangue do seu sangue.
Sei que espera por mim à porta, todos os dias,
focinho rente ao chão, porque sabe
que eu não falto, mesmo que me atrase.
Amanhã, vou ler-lhe o que escrevi a seu respeito
e sei que chorará de comoção, embora
nada saiba de poesia e muito menos de metafísica.
Há dias em que o cão, nesta caso a cadela,
é o melhor amigo da poesia, porque sabe que ela
tem o tamanho do seu coração quando me espera.


Espero que hajam lido com prazer estes dois poemas e, quem sabe, nós tenhamos conseguido despertar em vós o desejo de irem comprar o livro para conhecerem os restantes…

M.A.

16/11/13

E VIVAM AS MULHERES COMPETENTES



E VIVAM AS MULHERES COMPETENTES.
 
"O que torna um sonho irrealizável
é a inércia de quem sonha!!!"


Meu nome é MULHER!
Eu era a Eva
Criada para a felicidade de Adão
Mais tarde fui Maria
Dando à luz aquele
Que traria a salvação
Mas isso não bastaria
Para eu encontrar perdão.
Passei a ser Amélia
A mulher de verdade
Para a sociedade
Não tinha a menor vaidade
Mas sonhava com a igualdade.
Muito tempo depois decidi:
Não dá mais!
Quero minha dignidade
Tenho meus ideais!
Hoje não sou só esposa ou filha
Sou pai, mãe, arrimo de família
Sou camionista, taxista,
Piloto de avião, polícia feminina,
Operária em construção...
Ao
mundo peço licença
Para actuar onde quiser
Meu sobrenome é COMPETÊNCIA
E meu nome é MULHER..!!!!

Nota da autora do post- De uma grande amiga que tenho recebi este poema. O seu autor é desconhecido mas, seja ele de  homem ou de mulher, achei que trazê-lo a este blog teria cabimento. Nunca será demasiado enaltecer o papel da mulher, especialmente nestes tempos de crise, em que as dificuldades da vida cada vez mais se acentuam e a ela cabe, também, tantas vezes,  ser o único  garante  da família.
Para todas as mulheres competentes deste País aqui fica esta pequena homenagem pelo esforço que desenvolvem, tanto no seio da família como na sociedade.

(A imagem de abertura é um desenho da Álvaro Cunhal)
M.A.


26/05/12

Haja sempre poesia....



Pintar a vida com as palavras,
colorir o mundo com poemas,
Dar cor a ideias e sentimentos,
É assim que letra a letra,
O poeta constrói momentos!

Que  nunca falte imaginação,
Nem a tinta usada nas penas,
Que as rimas se soltem e sorriam,
E se façam sempre, muitos poemas!

Foto e poema de FC

22/02/11

POEMA APROPRIADO AOS TEMPOS QUE CORREM





Esta Gente / Essa Gente


O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente.


A autora do poema que acabaram de ler é Ana Hatherly, e ele foi retirado do seu livro "Um Calculador de Improbabilidades". Se acaso este nome, não for familiar aos nossos leitores convido-os a clicarem aqui para ficarem a conhecer a sua biografia. Quem sabe se, logo de seguida, se sentem curiosos e impelidos a procurarem ler mais coisas suas, em prosa ou em verso.M.A

27/02/10

AFONSO LOPES VIEIRA - «POIS BEM !»


Pela primeira vez trazemos aqui ao blog um poema de Afonso Lopes Vieira. Um clique sobre este nome, se acaso estiver em dúvida sobre quem foi este ilustre português e terá acesso à sua biografia.
Quanto ao poema, escolhido entre muitos da sua tão vasta obra literária, achamos ser interessante já que nele, o seu autor, numa rima impecável, dá-nos muitas e boas razões para nós, portugueses, sentirmos orgulho daquilo que outros povos poderão ter aprendido connosco. Faz parte do livro “Nova Demanda do Graal” editado em 1947
.
Leiam-no pois, com atenção e reparem nas várias alusões à nossa história que encontramos nestas estrofes Será uma leitura que, elevará também a nossa auto estima o que é, igualmente agradável e desejável.
M.A.

POIS BEM !

Se um inglês ao passar me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: - Pois bem!
se tens agora o mar e a tua esquadra ingente,
fui eu que te ensinei a nadar, simplesmente.
Se nas Índias flutua essa bandeira inglesa,
fui eu que t'as cedi num dote de princesa.
E para te ensinar a ser correcto já,
coloquei-te na mão a xícara de chá.

E se for um francês que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: - Pois bem!
Recorda-te que eu tenho esta vaidade imensa
de ter sido cigarra antes da da Provença.
Rabelais, o teu génio, aluno eu o ensinei
Antes de Montgolfier, um século! voei
E do teu Imperador as águias vitoriosas
fui eu que as depenei primeiro, e ás gloriosas
o Encoberto as levou, enxotando-as no ar,
por essa Espanha acima, até casa a coxear

E se um Yankee for que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: - Pois bem!
Quando um dia arribei á orla da floresta,
Wilson estava nu e de penas na testa.
Olhava para mim o vermelho doutor,
- eu era então o João Fernandes Labrador...
E o rumo que seguiste a caminho da guerra
Fui eu que to marquei, descobrindo a tua terra..

Se for um Alemão que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: -Pois bem!
Eras ainda a horda e eu orgulho divino,
Tinha em veias azuis gentil sangue latino.
Siguefredo esse herói, afinal é um tenor...
Siguefredos hei mil, mas de real valor.
Os meus deuses do mar, que Valhala de Glória!
Os Nibelungos meus estão vivos na História.

Se for um Japonês que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: -Pois bem!
Vê no museu Guimet um painel que lá brilha!
Sou eu que num baixel levo a Europa á tua ilha!
Fui eu que te ensinei a dar tiros, ó raça
belicosa do mundo e do futuro ameaça.
Fernão Mendes Zeimoto e outros da minha guarda
foram-te pôr ao ombro a primeira espingarda.

Enfim, sob o desdém dos olhares, olho os céus;
Vejo no firmamento as estrelas de Deus,
e penso que não são oceanos, continentes,
as pérolas em monte e os diamantes ardentes,
que em meu orgulho calmo e enorme estão fulgindo:
- São estrelas no céu que o meu olhar, subindo,
extasiado fixou pela primeira vez...
Estrelas coroai meu sonho Português !

P.S.
A um Espanhol, claro está, nunca direi: - Pois bem !
Não concebo sequer que me olhe com desdém.
Afonso Lopes Vieira

01/02/10

SENTENÇA INUSITADA DE UM JUÍZ, POETA E REALISTA


O Juiz Ronaldo Tovanini, de 31 anos, substituto da Comarca de Varginha, ex promotor de Justiça, Minas Gerais (Carmo de Cachoeira), concedeu liberdade provisória a um sujeito, preso em flagrante, por ter furtado duas galinhas e ter perguntado ao delegado «desde quando furto é crime neste Brasil de bandidos?»

O magistrado lavrou então a sua sentença em verso:

No dia cinco de Outubro
Do ano ainda fluente
Em Carmo da Cachoeira
Terra de boa gente
Ocorreu um facto inédito
Que me deixou descontente.

O jovem Alceu da Costa
Conhecido por "Rolinha"
Aproveitando a madrugada
Resolveu sair da linha
Subtraindo de outrem
Duas saborosas galinhas.

Apanhando um saco plástico
Que ali mesmo encontrou
O agente muito esperto
Escondeu o que furtou
Deixando o local do crime
Da maneira como entrou.

O senhor Gabriel Osório
Homem de muito tacto
Notando que havia sido
A vítima do grave acto
Procurou a autoridade
Para relatar-lhe o facto.

Ante a notícia do crime
A polícia diligente
Tomou as dores de Osório
E formou seu contingente
Um cabo e dois soldados
E quem sabe até um tenente.

Assim é que o aparato
Da Polícia Militar
Atendendo a ordem expressa
Do Delegado titular
Não pensou em outra coisa
Senão em capturar.

E depois de algum trabalho
O larápio foi encontrado
Num bar foi capturado
Não esboçou reacção
Sendo conduzido então
À frente do Delegado.

Perguntado pelo furto
Que havia cometido
Respondeu Alceu da Costa
Bastante extrovertido
Desde quando furto é crime
Neste Brasil de bandidos?

Ante tão forte argumento
Calou-se o delegado
Mas por dever do seu cargo
O flagrante foi lavrado
Recolhendo à cadeia
Aquele pobre coitado.

E hoje passado um mês
De ocorrida a prisão
Chega-me às mãos o inquérito
Que me parte o coração
Solto ou deixo preso
Esse mísero ladrão?

Soltá-lo é decisão
Que a nossa lei refuta
Pois todos sabem que a lei
É p’ra pobre, preto e p…
Por isso peço a Deus
Que norteie minha conduta.

É muito justa a lição
Do pai destas Alterosas.
Não deve ficar na prisão
Quem furtou duas penosas,
Se lá também não estão presos
Pessoas bem mais charmosas.

Afinal não é tão grave
Aquilo que Alceu fez
Pois nunca foi do governo
Nem sequestrou o Martinez
E muito menos do gás
Participou alguma vez.

Desta forma é que concedo
A esse homem da simplória
Com base no CPP
Liberdade provisória
Para que volte para casa
E passe a viver na glória.

Se virar homem honesto
E sair dessa sua trilha
Permaneça em Cachoeira
Ao lado de sua família
Devendo, se ao contrário,
Mudar-se para Brasília!!!

………………………………………………………….

Sem comentários, leitores!

(Recebido num e-mail. )
M.A

06/04/09

O PASSEIO DE SANTO ANTÓNIO


(Clique para ampliar a imagem)


Saíra Santo António do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento.
Um cândido sermão sobre o pecado.

Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite plácida baixando…

E andando, andando, viu-se num outeiro
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, bem puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo

O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Pêro, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais…
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.

De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito;
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia…o coração no peito.

Sem suspeitarem que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
_Oh frei António, o que foi aquilo?...

O santo erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namoradad,
Mentiu numa voz doce como o mel:
_Não sei o que fosse. Eu cá não ouvi nada…

Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
_Ouviste, frei António? Ouviste agora?
_Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho…

_Tu não está com a cabeça boa…
Um passarinho a cantar assim!...
E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado, mas por fim,

Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta saída redentora:
_Se o Menino Jesus pergunta mais,
…Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!

E voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: _Jesus,
São horas…
E abalaram p’ró convento.

Augusto Gil

(Santo António de José Franco, anos 70. Reparem no pormenor de o Menino Jesus ter um carrinho de mão!)

M.A.

28/02/09

PARÁBOLA DA AREIA E DA LÁGRIMA


Dantes, lá longe, nos confins arábios
Que se estendem do Líbano à Caldeia,
Vivia um velho, sábio entre os mais sábios
Dos Essénios da Síria e da Judeia.

Ora, um dia ,uma lenta caravana
Surgiu dos horizontes pela calma,
Trazendo em canjirões de porcelana
Essências de Bagdad e óleos de palma.

De regresso à distante Ásia Menor
Por aqueles desertos solitários,
Era um arménio, um jovem mercador,
Quem dirigia os lentos dromedários.

O sol morria. Às bandas orientais
Despontava, sanguínea, a lua cheia.
Havia alí um poço. E os animais,
Ruminando, ajoelharam-se na areia.

Passou-se a noite. E quando à boca de alva,
O mercador se ergueu junto à cisterna,
Viu o sábio aprumando a fronte calva,
De pé, no limiar duma caverna.

_Mestre, lhe disse, eu venho de Bukara,
Da colheita do bálsamo e do incenso.
E em toda a parte, com ternura rara,
Ouvi falar do teu saber imenso.

_Mestre, tu és por certo aquele monge
De quem tanta virtude eu venho ouvindo.
Disse-lhe o sábio: _Irmão, vens de bem longe...
Quem quer que sejas, homem, sê bem-vindo.

_Mestre, tornou-lhe o mercador de essência,
Ao camelos esperam a partida.
Aponta-me o caminho da Existência;
Ensina-me a parábola da Vida.

E, alongando o seu braço descoberto,
O monge erguendo a voz profunda e sábia,
Disse, fitando a areia do deserto,
Sob o céu ardentíssimo da Arábia:

_Traz-me um punhado dessa areia de oiro.
E o homem foi. E em renques paralelos,
Imóveis e fitando o bebedoiro
Eram de bronze os plácidos camelos.

E o homem mergulhou as mãos na areia...
Mas, qual se fora praga de bruxedos,
Mal empunhou uma febril mão-cheia,
Fugiu-lhe a fina areia entre os dedos.

E novamente as suas mãos nodosas
Mergulharam na areia e se crispavam.
Entretanto, como sombras silenciosas,
Os camelos imóveis esperavam.

Oh! A tragédia íntima do homem
Ante essa areia líquida e escaldante,
Vendo que os seus esforços o consomem
E todo o esforço é vão e vacilante!

Porém, como num lívido quebranto,
Ficou prostrado e atónito a olhar;
E uma lagrima límpida, de pranto,
Rolou-lhe e sobre a areia foi tombar.

E essa lágrima ardente, enorme e túmida,
Vertida do seu próprio coração,
Bastou para tornar a areia húmida
E afeiçoá-la ao côncavo da mão.

Então, como de súbito desperto,
O monge ergueu-se ‘inda robusto e ágil:
_A Vida é como a areia do deserto,
Pó transitório, inconsistente e frágil.

_Mas basta uma só lágrima de dor
E o mesmo pó, inútil e disperso,
Cristaliza-se em séculos de Amor.
É a alma de Deus no Universo.

_E agora parte, ó mercador de essência!
O Sol vai alto e a Arábia é desmedida!
Apontei-te o caminho da Existência!
Tu mesmo és a Parábola da Vida!

RAMIRO GUEDES DE CAMPOS (ABRANTES) 1925
(Fotos da Net)
M.A.

15/02/09

A FEIRA


Pensei que na feira havia
de tudo para vender.
Por isso no outro dia,
passei lá, procurei ver.

Vi nabos, couves, cenouras,
bonecos de fazer rir,
pregos, martelos, tesouras,
e roupas «pronto a vestir».

Latas velhas, frascos novos,
uma menina a tecer,
batatas, cebolas, ovos,
e gado para abater.

E aquilo que eu procurava,
bem corria, bem andava,
e nunca mais encontrava.

Vi fruta fresca, sapatos,
sementes, queijo, eu sei lá.
Vi camisolas, vi fatos,
chouriços , maracujá.

Vi copos, tigelas, plásticos,
cestos, arados, barris,
panos a metro, elásticos,
bolos às moscas, funis.

E aquilo que eu procurava,
bem corria, bem andava,
e nunca mais encontrava.

Vi burros, magros, bem relhos,
dois cegos que bem me viam,
e ferros-velhos, tão velhos,
mais velhos que o que vendiam.

Gente a vender caracóis,
presuntos com colorau,
bifes, croquetes, rissóis,
e pasteis de bacalhau.

E aquilo que eu procurava,
bem corria, bem andava,
e nunca mais encontrava.

Vi discos em profusão,
cassetes em gritaria,
chinelos, malas de mão,
e bancas de peixaria.

Vi galos, pão de centeio,
vinho a sair do tonel,
e, gritando, ali, no meio,
um vendedor de cordel.

E aquilo que eu procurava,
bem corria, bem andava,
e nunca mais encontrava.

Vi um pedinte a pedir,
e um cigano à sua beira,
tentando diminuir,
os metros da passadeira.

Vi fumo a subir no ar
e cheiro a sardinha assada.
Vi frangos a esturricar
na churrasqueira parada.

E aquilo que eu procurava,
bem corria, bem andava,
e nunca mais encontrava.

Dei uma volta e vi vasos
ao lado de loiça fina.
Eram tachos, pratos rasos
e, no meio, uma terrina.

Vi pardais numa gaiola
e um homem com seu tesouro,
mostrando na padiola,
pechisbeque a fingir ouro.

E aquilo que eu procurava,
bem corria, bem andava,
e nunca mais encontrava.

Por isso, eu desisti.
Voltei atrás no caminho.
Ninguém havia que, ali,
vendesse paz ou carinho.

Do que vi tirei a prova
que a feira não tinha vida.
Ia comprar vida nova;
Já tinha sido vendida.

Este, é mais um dos belos poemas de João Baptista Coelho, de Tires, S. Domingos de Rana. Este poeta contava, em tempos atrás, 937 galardões literários dos quais 216 cimeiros e absoluto. Neste momento, já muitos mais serão.
O poema que hoje apresentamos foi um desses premiados.

M.A.

30/01/09

SE

Rudyard Kipling


Se podes conservar o bom senso e a calma,
Num mundo a delirar, para quem o louco és tu;
Se podes crer em ti, com toda a força d’alma,
Quando ninguém te crê; Se vais faminto e nu,
Trilhando sem revolta um rumo solitário;
Se à torva intolerância, à negra incompreensão
Tu podes responder, subindo o teu calvário,
Com lágrimas d’amor e bênçãos de perdão;

Se podes dizer bem de quem te calunia;
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor,
Mas sem a afectação de um santo que oficia,
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor;
Se podes esperar sem fatigar a esperança;
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho;
Fazer do Pensamento um Arco da Aliança
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho;

Se podes encarar, com indiferença igual,
O Triunfo e a Derrota - eternos impostores;
Se podes ver o Bem oculto em todo o mal
E resignar, sorrindo, o amor dos teus amores;
Se podes resistir à raiva ou à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega, eivadas de peçonha,
Com falsas intenções que tu jamais lhe deste;

Se és homem p’ra arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado
E, calando em ti mesmo a mágoa de perderes,
Voltas a palmilhar todo o caminho andado;
Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizer palavra e sem um termo agreste
Voltares ao princípio, a construir de novo;

Se podes obrigar o coração e os músculos
A renovar o esforço, há muito vacilante,
Quando já no teu corpo, afogado em crepúsculos,
Só existe a Vontade a comandar «Avante!»;
Se, vivendo entre o povo, és virtuoso e nobre
Ou, vivendo entre os reis, conservas a humildade;
Se, inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre,
São iguais para ti à luz da Eternidade;

Se quem recorre a ti encontra ajuda pronta;
Se podes empregar os sessenta segundos
De um minuto que passa, em obra de tal monta
Que o minuto se espraie em séculos fecundos;
Então, ó Ser Sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos e os espaços;
Mas, ‘inda para além, um novo sol rompeu
Abrindo um infinito ao rumo dos teus passos;

Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem recear jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um HOMEM.



Versão de Félix Bermudes (1874-1960) do Poema “IF”de Rudyard Kipling (1865-1936), escolhida por João Vilaret.

M.A.

19/01/09

Poesia Incompleta

Three Books, Vincent Van Gogh, Paris, March-April, 1887. Amsterdam, Van Gogh Museum.


Nasceu há um mês e meio no número 11 da Rua Cecílio de Sousa, chama-se Poesia Incompleta, é um livraria diferente: da sua porta para dentro só há poetas. E todos eles com direito a nome próprio.

Com mais rigor: entrando, percorrendo com o olhar as estantes nas duas salas de que a livraria para já dispõe, não se procure, por exemplo, um livro de Sena na sequência S. O livro, se o houver, há-de estar em J, de Jorge, Jorge de Sena. E Gedeão em A, de António, e Camões em L, de Luís, e Pessoa, em F, de Fernando. E assim por diante.

Nenhum engano, e nada de extraordinário. O proprietário e único empregado da livraria, Mário Guerra, Changuito para amigos e clientes, sabe bem as regras de organizar uma biblioteca
mais...

Poesia Incompleta

Rua Cecílio de Sousa, 11, Lisboa Segunda a sábado, das 10 às 19.45 mail: poesia.incompleta@gmail.com Tel:00 351 96 000 53 60

Algures entre o bairro alto e rato (veja aqui o mapa)

27/12/08

POEMA AOS AMIGOS


Não posso dar-te soluções
para todos os problemas da vida,
nem tenho resposta para as tuas dúvidas ou medos,
porém, posso ouvir-te e compartilhá-los contigo.

Não posso modificar
nem o teu passado nem o teu futuro
posso, quando precisares,
estar junto de ti.

Não posso evitar que tropeces.
Somente posso dar-te a minha mão, para te amparar antes de caíres.
Tuas alegrias, teus triunfos, teus êxitos, não são meus.
Mas alegro-me sinceramente se te vejo feliz.

Não julgo as decisões que tomes na vida,
limito-me a apoiar-te, a estimular-te,
e a ajudar-te,
se mo pedes.

Não posso definir-te limites
Dentro dos quais devas actuar
Mas sim, oferecer-te esse espaço
necessário, para cresceres.

Não posso evitar teu sofrimento
quando alguma dor parte teu coração.
Posso porém chorar contigo e recolher os pedaços
para o recompor de novo.

Não posso dizer-te quem és,
nem quem deverias ser.
Somente posso, amar-te como és
e ser teu amigo.

Por estes dias pensei nos meus amigos e amigas.
Não estavas nem acima, nem em abaixo da média.
Não abrias, nem fechavas a lista
Não eras o número um, nem o número final.

Dormir feliz, trocar vibrações de amor.
Saber que estamos próximos.
Melhorar as relações, .aproveitar as oportunidades.
Escutar o coração. Acreditar na vida.

E tampouco tenho a pretensão de
Ser o primeiro,
o segundo, ou o terceiro
da tua lista.
Basta que me aceites como amigo.

Obrigada por o seres.



Jorge Luís Borges Acevedo nasceu em Buenos Aires, em 24 de Agosto de 1899 e faleceu em Genebra, ( onde está sepultado), em 14 de Junho de 1986. Foi um escritor, poeta, tradutor, crítico e ensaísta, mundialmente conhecido pelos seus contos e histórias curtas.

Fala-se que o seu bisavô Francisco, seria um português, nascido em 1770, que teria vivido em Moncorvo e depois emigrado para a Argentina, onde casou e veio a morreu

A partir da década de 80, afectado por uma cegueira progressiva passou a dedicar-se mais à poesia.

Estas, são umas brevíssimas notas biográficas do autor do belo poema que apresentamos acima, numa tradução livre do espanhol. Melhor será lê-lo na língua original.

Possivelmente, um dia, aqui falaremos de J.L.Borges mais pormenorizadamente.

M.A.
Sociedade de Instrução Musical e Escolar Cruz Quebradense

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