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25/04/12

PEDRA FILOSOFAL




De tempos em tempos  surgem poemas, ou canções, que nos ficam na ideia para o resto da vida.
Desta vez, foi um Ilustre professor de Físico-Química, de nome Rómulo de Carvalho, que sob o pseudónimo de António Gedeão ( para saber dados biográficos clique aqui) escreveu, certo dia o inspirado Pedra Filosofal.
O tema principal é o sonho que nasce com o homem, se vai renovando e acompanhando-o vida fora e que, o autor, associa à alquimia, fazendo comparações e associações, com a arte, com a técnica, com as nossas caravelas e descobrimentos, etc. etc., enfim com o constante desejo de uma ida  mais além, nos conhecimentos. Vai enumerando  nesta linguagem poética  e onírica uma imensidade de objectos nos quais, de repente, até  nós próprios  encontramos ligações.
A pedra filosofal está ligada a uma lenda em que se conta que  ela seria a substância usada para transformar  determinados metais em ouro e, na antiguidade, muitos alquimistas se debruçaram sobre tais experiências. Seguindo essa linha de pensamento, no poema,  “o sonho” será também a tal componente que levará o homem  a atingir os grandes feitos na vida e é curioso como ele termina com uma  humilde comparação “da bola colorida  que  pulando pela mão duma criança fará o mundo pular e avançar sempre um pouco mais” Isto é, também, um Hino à esperança que deve sempre existir em  cada ser humano.
Um dia. o Manuel Freire pegou neste poema e musicou-o, igualmente com enorme inspiração e, deste “casamento de letra e música” surgiu a maravilhosa canção que correu mundo sob o nome de Pedra Filosofal, que hoje podereis ouvir clicando aqui.
Já agora não resisto a contar-vos uma pequenina curiosidade ligada a esta canção:
Manuel Freire, sem intenção omitiu um verso ao poema. Quando o ouvimos cantar  ‘bichinho álacre e sedento  de focinho pontiagudo – no perpétuo movimento’  e comparamos com o que o autor do poema escreveu vemos que teria que ser  ‘bichinho álacre e sedento de focinho pontiagudo – que fura através de tudo – no perpétuo movimento’.
Manuel Freire contou que António Gedeão tendo assistido a alguns ensaios da canção jamais se referiu ao lapso. E, quando Manuel Freire, um dia, deu pela omissão, aborrecido pelo facto, apressou-se a ir junto do professor desculpar-se e  explicar-se, .foi recebido com a maior das simpatias pelo autor da letra que desvalorizou o assunto e lhe disse que mantivesse a gravação assim mesmo pois, aquele verso não seria, de todo, imprescindível para todo o resto do poema. Foi um gesto bem simpático, não estragar todo o anterior trabalho do cantor.
M.A.

15/10/11

Quando as pétalas começam a cair....



Era um namorico pegado entre a flor e o seu canteiro


Quando ele adoeceu apressou-se a ficar melhor, a superar, porque queria estar junto da sua flor e dar-lhe atenção e momentos de alegria


Um dia percebeu que ela estava doente.


Ficou triste e preocupado, mas arranjou força para a animar…


Ambos viam que estavam a definhar, a velhice e a doença estavam a querer ser mais fortes, mas eles olhavam em frente, queriam viver.


A vida pregou-lhes algumas partidas, mas eles que sempre estiveram juntinhos, sabiam muito bem como ultrapassar contrariedades.


Os amigos iam visitá-los e até lhes punham água e fertilizantes. Tiravam as ervas daninhas do caminho… eram amigos de verdade!


Um dia a flor ia deixando cair as suas pétalas até que um dia caiu mesmo e não voltou a erguer-se.


O canteiro ficou muito triste, era grande a sua dor.

Os amigos lá foram a correr.

À flor, iam prestar a sua última homenagem, ao canteiro, dar um abraço apertado


Já não fazia falta mais água. O canteiro não queria mais flores no seu espaço! Tinha sido aquela a única da sua vida.


Que importa agora, que cresçam as ervas daninhas !!!!


FC
Texto e foto

29/06/11

Sol doirado

Numa tarde limpida e serena
mesmo já ao entardecer
o Sol tudo doirou
ai... vocês haviam de ver!!!



O que era branco ficou oiro
o que era verde também
grande riqueza este Sol
felizes os que o têm...


Parecia um conto de fadas
a paisagem à minha volta
oiro aqui, oiro acolá
tanta fortuna à solta!

Fotos e poema
fc

20/03/11

CANTIGA DOS AIS de Armindo Mendes de Carvalho (1927/1988)



Os ais de todos os dias,
os ais de todas as noites.
Ais do fado e do folclore,
o ai do ó ai ó linda.

Os ais que vêm do peito,
ai pobre dele, coitado
que tão cedo se finou!

Os ais que vêm da alma.
Ais d’ amor e de comédia,
ai pobre da rapariga
que se deixou enganar…
ai a dor daquela mãe.

Os ais que vêm do sexo,
os ais do prazer na cama.
Os ais da pobre senhora
agarrada ao travesseiro
ai que saudades, saudades,
os ais tão cheios de luto
da viúva inconsolável.
Ai pobre daquele velhinho:
_ai que saudades menina,
ai a velhice é tão triste.

Os ais do rico e do pobre
ai o espinho da rosa
os ais do António Nobre.
Ais do peito e da poesia
e os ais de outras coisas mais.
Ai a dor que tenho aqui,
ai o gajo também é,
ai a vida que tu levas,
ai tu não faças asneiras,
ai mulher és o demónio,
ai que terrível tragédia,
ai a culpa é do António!

Ai os ais de tanta gente…
ai que já é dia oito
ai o que vai ser de nós.

E os ais dos liriquistas
a chorar compreensão?
ai que vontade de rir.

E os ais de D. Dinis
Ai Deus e u é…

Triste de quem der um ai
sem achar eco em ninguém.
Os ais da vida e da morte
Ai os ais deste país…

Mário Viegas gravou este poema num dos seus vídeos e, a verdade, é que o diz com tanta graça que seria mesmo uma pena não o mostrarmos neste blog.




Pensamos que aqueles leitores que ainda o não conheçam terão uma agradável surpresa. Quanto aos demais, mesmo já não sendo novidade vão também, acreditamos, revê-lo com prazer.
Em relação ao seu autor, Armindo Mendes de Carvalho, para os leitores que dele queiram saber mais, convidamo-los a clicarem aqui.

M.A.

28/02/11

JOÃO VILLARET MORREU HÁ 50 ANOS



Tendo nascido em 10 de Maio de 1913 este eminente actor, encenador e declamador português veio a falecer no dia 21 de Janeiro de 1961.
Completaram-se pois, este ano, 50 anos sobre a sua morte.
Porém o seu nome e prestígio continuam vivos entre nós, pois ainda ninguém lhe tirou o lugar que ele ocupava na poesia portuguesa. A nós nos parecia, sempre que o ouvíamos, que cada poeta tinha feito os seus versos para tomarem o som daquela sua voz, grave, pausada, bem timbrada, por onde o sentido das palavras chegava até nós duma forma perfeita e absolutamente natural.
Quem se lembrar do seu programa de poesia na TV recordará, sem dúvida, o ar descontraído com que costumava sentar-se, junto a uma mesa, por vezes brincando com os óculos, um sorriso no rosto, em fundo, o som do piano tocado pelo seu irmão e, depois, a poesia a fluir sem que o espectador se apercebesse do tempo a passar.
Para ele a nossa homenagem . Se o leitor ou leitora o quiser recordar clique aqui, mais aqui e, ainda uma vez mais aqui.
Nota:-Entre as gravações que tenho suas, há uma que já é uma "relíquia".É A CEIA DOS CARDEAIS, num disco de vinil, numa gravação de 1968. Além do João Villaret entram também Alves da Cunha e Assis Pacheco.
M.A.

04/02/11

SE ( Rudyard Kipling )


Se podes conservar o teu bom senso e a calma,
Num mundo a delirar p’ra quem o louco és tu
Se podes crer em ti com toda a força d’ alma
Quando ninguém te crê; se vais, faminto e nu,
Trilhando sem revolta um rumo solitário;
Se à torva intolerância, à negra incompreensão
Tu podes responder, subindo o teu calvário,
Com lágrimas d’ amor e bênçãos de perdão;


Se podes dizer bem de quem te calunia;
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor,
Mas sem a afectação de um santo que oficia,
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor;
Se podes esperar sem fatigar a esperança;
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho;
Fazer do Pensamento um Arco da Aliança
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho;


Se podes encarar com indiferença igual,
O Triunfo e a Derrota _ eternos impostores;
Se podes ver o Bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo o amor dos teus amores;
Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega, eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste;

Se és homem p’ra arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado
E, calando em ti mesmo a mágoa de perderes,
Voltas a palmilhar todo o caminho andado;
Se podes ver por terra as obras que fizeste
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste

Voltares ao princípio, a construir de novo;
Se podes obrigar o coração e os músculos
A renovar o esforço, há muito vacilante,
Quando já no teu corpo, afogado em crepúsculos,
Só exista a vontade a comandar «Avante»;
Se, vivendo entre o povo, és virtuoso e nobre
Ou, vivendo entre os reis, conservas a humildade;
Se, inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti, à luz da Eternidade;


Se quem recorre a ti encontra ajuda pronta;
Se podes empregar os sessenta segundos
Dum minuto que passa, em obra de tal monta
Que o minute se espraie em séculos fecundos;


Então, ó Ser Sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços;
Mas, inda para além, um novo sol rompeu
Abrindo um infinito ao rumo dos teus passos;


Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem recear jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um HOMEM!...


Julgo que haverá muito poucos que, neste momento possam desconhecer este poema do consagrado autor e poeta britânico Rudyard Kipling (Bombaim 30-12-1885 / Londres 18-1-1936).
É, sem dúvida nenhuma, um poema de qualidade. Se me permitem, sugiro mesmo àqueles que tenham conhecimentos para tal, que o leia no idioma original, o inglês, certa de que tirarão disso um prazer maior ainda.




Porém, leitores, este post de hoje não fica só por aqui, uma vez que venho também mostrar um vídeo que me chegou por e-mail e, onde o seu autor incluiu um texto no qual encontrei algumas semelhanças com o poema inglês. Longe de mim pretender desmerecer no mérito de Kipling mas, ressalvadas as devidas distâncias, creio que ireis concordar comigo. Por outro lado, está feito com certo humor e, nos tempos que correm, essa é uma característica que, considero também importante para amenizar o nosso dia a dia, que nem sempre se apresenta fácil.
M.A.

29/01/11

Namoro

Foto minha
"Namoro"

O Amor, Quando Se Revela


O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p'ra ela,

Mas não lhe sabe falar.


Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há de dizer.

Fala: parece que mente

Cala: parece esquecer


Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar...



Fernando Pessoa
fc

23/01/11

Sózinha na praia...

foto minha
"sozinha na praia"



Os dias passam lentamente, sem pressa.

Aqui definho, sentada nesta areia que outrora foi dourada.

Curvo-me perante as memórias.

Espero por uma onda que traga uma mensagem, uma palavra apenas.

Todos passam mas não me vêm.

Não ouvem as minhas histórias.

Correm apressados... caminham, mas não olham.

Quero gritar!

Onde está a minha voz??? Só há silêncio...

O mar murmura, baixinho.

Estou velha. Não o oiço, não o consigo escutar!

Vivo há muitos anos nesta praia. Será esta a minha última morada?

Virá uma onda, que me arranque desta solidão e me deixe navegar?

texto meu


fc

20/12/10

POEMA DE NATAL



Ao menino Jesus


Hoje é dia de Natal
Mas o menino Jesus
Nem sequer tem uma cama,
Dorme na palha onde o pus.

Recebi cinco brinquedos
Mais um casaco comprido.
Pobre menino Jesus,
Faz anos e está despido.

Comi bacalhau e bolos,
Peru, pinhões e pudim.
Só ele não comeu nada
Do que me deram a mim.

Os reis de longe trazem
Tesouros, incenso e mirra.
Se me dessem tais presentes,
Eu cá fazia uma birra.

Às escondidas de todos
Vou pegar-lhe pela mão
E sentá-lo no meu colo
Para ver televisão.

Luísa Ducla Soares

Pesquisando sobre poesia alusiva à época de Natal encontrei o poema de Luísa Ducla Soares, intitulado: “AO MENINO JESUS” e, achei que, pela sua simplicidade, colocado no blog, poderia agradar a miúdos e crescidos.
Aconteceu que, um ou dois dias depois, viajando no carro do meu filho, vi, esquecido sobre o assento, um caderno da pequena Marta, filha dele, que tem, neste momento 7 anos.
Curiosa, como qualquer avó, peguei nele e, lá fui virando folha por folha, mirando desenhos e escrita vária.
A certa altura, deparei com as mesmas quadras que eu havia escolhido, ali escritas pela mão da minha neta. Na escola em que anda a pequenita, este poema fora, portanto, tema de uma lição, dada a quadra que atravessamos. Foi por achar curiosa a coincidência que resolvi juntá-lo também.
O desenho que abre este post é igualmente da autoria da Marta.
M.A.

09/11/10

O LAÇO E O ABRAÇO



Meu Deus!!! Como é engraçado!…
Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço…
Uma fita dando voltas? Se enrosca…
Mas não se embola , vira, revira, circula e pronto: está dado o abraço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.

É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido,
em qualquer coisa onde o faço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando
devagarinho, desmancha, desfaz o abraço.
Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.
E na fita que curioso, não faltou nem um pedaço.
Ah! Então é assim o amor, a amizade. Tudo que é sentimento? Como um pedaço de fita?
Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora,
deixando livre as duas bandas do laço.


Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga, então se diz – romperam-se os laços.-
E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.


Então o amor é isso…
Não prende, não escraviza, não aperta, não sufoca.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço.

Autora Maria Beatriz Marinho dos Anjos, nascida em Belo Horizonte em 1952. Diz-se psicóloga, cronista e poeta. Este poema aparece, por vezes, como sendo de Mário Quintana, o que a sua autora já contestou, como pode ver aqui no comentário que ela faz.
M.A.

01/11/10

HABEAS PINHO E DILERMANDO RÉIS



Em Maio de 2008 falamos pela primeira vez neste blog de HABEAS PINHO, um curioso episódio que teve lugar em Campina Grande, Paraíba, Brasil, no ano de 1955.
Quando este episódio aconteceu teve um tal impacto que, segundo se diz, os poemas, desde então, apareceram afixados em todos os escritórios de advogados, cartórios, etc. e, igualmente, em bares.
No primeiro post apresentamos simplesmente os dois poemas que o compõem, com a explicação respectiva. Para recordar o que então foi dito, convidamo-lo a clicar aqui.
Se abordamos, de novo, o mesmo assunto é para apresentar, agora, uma versão em vídeo, que tem a particularidade de ser musicada com um bonito trecho composto por Dilermando Réis. Chama-se este solo de violão “Abismo de Rosas”.



O grande violonista brasileiro de quem falamos (22-9-16 / 2-1-77) ficou conhecido como “O Canhoto de Paraíba”, justamente porque tocava com a mão esquerda, embora num violão igual a qualquer outro. Isto significa que a dificuldade de tocar era acrescida por a colocação das cordas não ter sofrido nenhuma alteração, uma vez que, quando aprendeu, em garoto, tinha mais irmãos a usarem o mesmo instrumento. Compôs e gravou nada mais nada menos de 129 obras para violão.

Esperamos que este post seja, pois, do vosso agrado.

Video recebido num e-mail)
M.A.

26/08/10

E o mar ali tão perto....


VOZES DO MAR
Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d'oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?...
Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?
Tens cantos d'epopeias?
Tens anseiosD'amarguras?
Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!
Donde vem essa voz, ó mar amigo?......
Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

Florbela Espanca
fc

21/07/10

LER OU RELER… EIS A QUESTÃO



Chegou-nos recentemente às mãos este poema de Clarice Lispector. Este nome talvez seja desconhecido para alguns dos nossos leitores, portanto, àqueles que quiserem saber algo mais a seu respeito convidamo-los a clicarem aqui.

A curiosidade e genialidade do poema em questão está na forma como o seu sentido se altera, quando lido tal como se apresenta ou, depois, começando do fim para o princípio. Experimentem e talvez fiquem surpreendidos

Não te amo mais.
Estarei mentindo se disser que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza de que
Nada foi em vão.
Sei dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer nunca que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade:
É tarde demais...

Então, leitores? Gostaram? Esperamos que sim.
M.A.

11/07/10

ANTONIO ALEIXO


Para fazer a apresentação deste poeta popular fomos buscar a Nota que o seu editor escreveu no I volume do “ESTE LIVRO QUE VOS DEIXO":

«Os versos de António Aleixo foram primeiramente editados em brochuras dispersas: Quando começo a cantar…, 1943; Intencionais, 1945; Auto da Vida e da Morte, 1948; Auto do Curandeiro, 1949. Posteriormente, estes pequenos livros, aos quais se juntou Auto do Ti Jaquim (inédito até à sua inclusão neste livro), foram compilados num único volume – Este Livro Que Vos Deixo…
Cada um destes pequenos livros encerra em si uma história, da qual as linhas de apresentação que sempre os acompanharam nas várias edições são testemunho vivo. Retirá-las seria amputar um pouco o sentido da obra deste poeta algarvio e, antes do mais, calar as palavras do Dr. Joaquim Magalhães, grande amigo e o apoio sempre presente de António Aleixo.
Bastariam estes factos, e outros existem certamente, para impor a necessidade de manter os vários prefácios e as notas introdutórias que separam cada parte deste livro. Cremos assim ter conseguido ser fiéis ao próprio poeta e permitir aos leitores sentirem mais vivamente a poesia de António Aleixo».


Deixamo-vos agora, leitores, com este vídeo onde se mostram quadras suas. Em algumas delas, o poeta algarvio expressa verdades e desabafos da vida bem amargurada, que viveu.

Se pretender ter acesso à sua biografia queira clicar aqui.
Até breve com outro qualquer tema

M.A.

08/05/10

POEMA DE PABLO NERUDA



Quem morre?

Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.

………………………………………………………………….............................

Espero que tenham gostado deste poema que hoje vos trouxe, do grande poeta chileno Pablo Neruda (12-7-1904 / 23-9-1973)

M.A

14/03/10

ORAÇÃO DAS MULHERES RESOLVIDAS


Do Médico psiquiatra e sexólogo, Dr. Júlio Machado Vaz trazemos hoje um delicioso poema em que ele, com aquele humor que lhe é tão peculiar, brinca com a relação homem-mulher duma forma bastante curiosa, pois, digamos, aqui aparecem “eles, um pouco como vítimas”.
Ora isto, vindo escrito por um homem traduz, a nosso ver, uma mentalidade aberta e livre daqueles preconceitos ligados à chamada “guerra dos sexos” em que há, por vezes, a tendência para confundir as diferenças entre um e outro, como superioridades ou inferioridades. Mas claro que isto não é novidade alguma para quem já o conhece, o foi ouvindo na Rádio ou TV ou, teve mesmo oportunidade de ler os livros que escreveu. Se precisar de recordar os seus dados biográficos queira, p.f. clicar
aqui.
Convido então todos a lerem e a divertirem-se com a graça saudável que o autor soube imprimir a este poema:

ORAÇÃO DAS MULHERES RESOLVIDAS

Que o mar vire cerveja e os homens aperitivo,
que a fonte nunca seque,
e que a nossa sogra nunca se chame Esperança,
porque Esperança é a última que morre...
Que os nossos homens nunca morram viúvos,
e que os nossos filhos tenham pais ricos e mães gostosas!
Que Deus abençoe os homens bonitos,
e os feios se tiver tempo...
Deus...
Eu vos peço sabedoria para entender um homem,
amor para perdoá-lo e paciência pelos seus actos,
porque Deus,
se eu pedir força,
eu bato-lhe até matá-lo.

Um brinde...
Aos que temos,
aos que tivemos e aos que teremos.

Um brinde também aos namorados que nos conquistaram,
aos trouxas que nos perderam,
e aos sortudos que ainda vão conhecer-nos!

Que sempre sobre,
que nunca nos falte,
e que a gente dê conta de todos!
Amén.

P.S.: Os homens são como um bom vinho: todos começam como uvas é dever da mulher pisá-los
e mantê-los no escuro até que amadureçam e se tornem uma boa companhia para o jantar.
Júlio Machado Vaz

(Nota da autora do post: Há anos, no lançamento de um novo livro de uma amiga comum, o Dr Machado Vaz foi justamente o apresentador. Em seguida, já numa amena conversa de grupo, foi contada uma anedota em que os homens eram as personagens também "atingidas". Pois, tenho ainda no ouvido, a saborosa gargalhada que ele soltou.) M.A.

17/02/10

ANTONIO LOBO ANTUNES – Sátira aos homens quando com gripe

Com este abaixamento de temperatura, estamos bastante preocupadas com as constipações e gripes que possam surgir por aí. Tanto mais que, cá por estas bandas, nos desfiles de Carnaval há sempre quem goste de reduzir as peças de vestuário imitando o que se passa noutras latitudes de clima mais ameno e, depois, sofra as consequências do frio que apanhou.
Ora, o que trazemos hoje é um poema que retrata, com bastante humor, precisamente um homem quando está (ou pensa que está!) com gripe:

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre,olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

Esperamos que tenham sorrido um pouco com esta rima tão inspirada de António Lobo Antunes. M.A.

02/01/10

QUASE DEUS


Leitores:
Hoje teremos um soneto que me parece enquadrar-se ainda no tema aqui tratado ontem. É do poeta João Baptista Coelho e tem por título:

QUASE DEUS

Se a gente se guerreia, vem a ira;
Se em nós entra a inveja, sai razão;
Se o ódio nos domina, ninguém tira
proveito que mereça estar na mão.

Porquê fazermos guerra que retira
O mérito de sermos multidão?
Porquê não temos paz e o mundo gira
Com ela espezinhada pelo chão?

Se a gente penetrar no consciente
E dermos uns aos outros o que temos
Sem ser aqueles ódios, teus e meus,

O Deus dirá que a gente somos gente,
Que a vida tem a paz como queremos
E o homem será mesmo quase Deus.

Já em duas ocasiões anteriores trouxemos ao blog poesia deste Autor que reside em S. Domingos de Rana. Se a quiser relembrar, bem como os dados biográficos do Poeta, faça favor de clicar aqui e aqui.

Fiquem em Paz, leitores!
M.A.

24/12/09

O MILAGRE DA NOITE DE NATAL



A Virgem Mãe, depois de reparar
que ninguém mais se encontrava lá na ermida,
desceu devagarinho do altar,
_como temendo ser surpreendida_

e foi espreitar, pé ante pé,
à janela que deita para a rua:
no Céu, brilhava clara a luz da lua.
Em seu altar sorria S. José…

Nem viv’ alma. E então Nossa Senhora,
segura já de que ninguém a via,
pôs em acção a ideia redentora
que tivera naquele santo dia.

Foi buscar um cestinho de costura
que ocultara no vão de uma janela.
O cesto era pertença da capela:
_não se rompesse a veste ao padre-cura…

Cortou em largas tiras o seu manto,
enfiou uma linha numa agulha
e, depois foi sentar-se para um canto
mas sem fazer a mais ligeira bulha.

Quem a visse coser assim tão bem,
ora enfiando ora puxando a linha,
di-la-ia a melhor costureirinha,
mas nunca, certamente, a Virgem Mãe!

O S.José sorria sempre muito,
olhando-a com sincera devoção:
é que ele bem sabia o meigo intuito
que obrigava a Senhora a tal serão.

Os outros Santos, todos num cochicho,
não perdiam de vista o altar-mor,
o Santo António, para ver melhor,
até ia caindo do seu nicho…

Houve uma Santa – a gentileza manda
sobre o seu nome conservar sigilo –
que até ficou de resplendor à banda,
tais voltas deu para espreitar aquilo.

A Senhora entretanto costurava,
presa num sonho que se não descreve,
alheia ao tempo que fugia breve
e ao pasmo que em redor se condensava.

Esteve assim cosendo horas a fio,
à frouxa luz da trémula candeia.
De entretida, nem dava pelo frio…
E, contudo, nevava sobre a aldeia!

Fez bibes, camisinhas, tudo quanto
pode servir de abafo a um petiz.
Cada vez refulgia mais feliz
o seu olhar imaculado e santo.

E as peças que a Senhora ia acabando
os anjos de um retábulo da igreja
levavam-nas depois num voo brando
– voo de pomba que no Céu adeja –

às criancinhas que andam pelo mundo
sem roupa, sem abrigo e sem família…
A Virgem continuava na vigília.
Havia em roda um soluçar profundo.

Por fim, adormeceu, ou de cansaço
ou por doce milagre de Jesus.
– Um enxoval inteiro no regaço
e na fronte uma auréola de luz!

E de manhã na missa do Natal,
quando o prior saiu da sacristia,
foi encontrar a Virgem que dormia
_ tendo nas mão a agulha e o dedal.

Adolfo Simões Müller
«Caixinha de Brinquedos»
Este poema teve o 1º prémio nacional de Literatura Infantil em 1973

Imagem- Adoração dos Pastores de Jusepe de Ribera
M.A.

13/09/09

PATATIVA DE ASSARÉ


Hoje, virei falar de uma paixão que me surgiu recentemente ao descobrir a poesia de Patativa de Assaré. Nesta altura já alguém estará a perguntar de quem estarei a falar, portanto, de imediato, aqui deixo um resumo do que descobri:

_No ano de 1909, lá para os lados do Nordeste Brasileiro, a 18 Klm de Assaré, nasceu um garoto, que viria a chamar-se António. Filho de gente pobre, ao ser descoberto o seu jeito para versejar logo ficou traçado o destino que lhe haveria de dar fama, sob o pseudónimo de Patativa de Assaré.
A sua capacidade criadora, tanto no fazer da poesia como no dedilhar da viola com que se fazia acompanhar, deu-lhe uma projecção que o levou a lugar cimeiro no mundo da música nordestina brasileira. O facto de ter frequentado a escola menos de seis meses não o impediu de fazer poesia cheia de sabedoria, conceitos morais, algum humor, etc. O linguajar caboclo contribuiu também para dar mais graça aos seus versos e o levar à popularidade que alcançou.

Foram inúmeros os prémios e galardões a si atribuídos e, inclusivamente, foi cinco vezes, doutorado Honoris Causa por Universidades brasileiras. Tinha uma memória privilegiada e, quase até ao falecimento (morreu aos 93 anos) recitava de cor as suas poesias.

Outra faceta dele foi ter mantido sempre a sua simplicidade de vida, nunca abdicando de ser agricultor. Fazia mesmo questão de salientar que nunca tinha procurado a fama nem feito profissão dos seus versos.
Achei que esta seria mais uma figura que merecia ser divulgada aqui neste nosso blog e, para vos despertar a apetência de irem procurar mais rimas suas aqui fica, como amostra, este curto mas significativo poema:

EGOÍSMO

Sem ver as grandes cegueiras
Da sua própria pessoa
Vive o homem sempre às carreiras
Atrás de uma coisa boa.
Quando a coisa boa alcança
Ele ainda não descansa,
Sente um desejo maior,
Esquece aquela ventura,
E corre logo à procura
De outra coisa bem melhor.

Se a segunda ele alcançar,
Aumenta mais a cegueira,
Fica sem se conformar
Correndo atrás de terceira,
Vem a quarta, a quinta, a sexta
E ele sendo o mesmo besta
Correndo atrás de ventura,
Assim esta vida passa
E desgraçado fracassa
No fundo da sepultura.

(Este poema está no seu livro “Ispinho e Fulô”. Alguns outros livros seus: “Inspiração Nordestina, Cantos do Patativa, Patativa de Assaré, Cante lá que eu canto cá, Aqui tem coisa e Cordéis e outros poemas”. Elementos recolhidos na Net)

M.A.
Sociedade de Instrução Musical e Escolar Cruz Quebradense

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